No velório de Araújo, Dilma diz que distritão é "desdobramento do golpe" Fernando Gomes/Agencia RBS

Foto: Fernando Gomes / Agencia RBS

Reservada desde a notícia da morte de Carlos Araújo, a ex-presidente Dilma Rousseff falou ao final do velório do ex-marido. Em um discurso de pouco mais de cinco minutos, a petista demonstrou emoção ao falar das características do ex-companheiro, mas subiu o tom de voz ao falar de política. Relacionou as lutas do ex-deputado à situação do Brasil pós-impeachment, denunciou  a "insensibilidade" de uma "elite extremamente interessada no descontrole político" e se referiu à aprovação do "distritão" como parte de um processo iniciado com sua retirada da Presidência:

— Ele (Araújo) tinha clareza de que o golpe não é uma iniciativa isolada, faz parte de um processo, que começa com o impeachment, continua com o impedimento do Lula candidato e tem outros desdobramentos. Pode ser o distritão, pode ser o parlamentarismo. Foi a primeira pessoa que levantou a possibilidade de que o parlamentarismo seria a consolidação do golpe — sentenciou a ex-presidente.

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Em seu único pronunciamento público durante toda a cerimônia, Dilma lembrou de ideias de Carlos Araújo para se referir a temas atuais, como a reforma trabalhista:

— Carlos sempre deixou claros seus pensamentos. Tinha um compromisso, e esse compromisso é muito importante no nosso país, hoje. Um compromisso com o povo brasileiro, com a soberania e com o desenvolvimento deste país. E tinha clareza absoluta de que tínhamos e temos uma elite extremamente insensível, extremamente interessada no descontrole político. Carlos foi um advogado trabalhista que, diante da reforma trabalhista, se arrepiou. Porque percebia a dificuldade que um trabalhador brasileiro tem de negociar com seu patrão. 

Ao lembrar da luta política do ex-marido, Dilma fez referência à forma "apaixonada" e "feliz" com que Araújo travava suas batalhas — inclusive políticas:

— Da mesma forma com que ele viveu sua vida privada, queria que todo mundo tivesse condições de viver intensamente sua própria vida. Essa visão que permitia ao Carlos aglutinar pessoas, porque ele mostrava a possibilidade de ser feliz. O que facilitava a capacidade de resistir. Era uma pessoa com capacidade de articulação política, convívio político, de entender a diferença, de se relacionar com diferenças. Essa capacidade de convivência do Carlos permitiu que ele tivesse amigos das mais diversas correntes políticas.

Ao final do discurso, Dilma recebeu abraços e cumprimentos emocionados de amigos e familiares. Desde o início da cerimônia, a ex-presidente passou boa parte do tempo de pé ao lado do caixão, na companhia da filha Paula, fruto do relacionamento com Araújo, e do genro, Rafael. Depois das 21h, uma cerimônia particular seria realizada para a cremação de Araújo.

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