Baixo preço e maior custo de plantio reduzem safra de milho em SC Sirli Freitas/Agencia RBS

Foto: Sirli Freitas / Agencia RBS

O plantio de milho em Santa Catarina terá redução de aproximadamente 20% na próxima safra, segundo estimativas de lideranças do setor. O Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola ainda está levantando dados, mas entidades como a Federação das Cooperativas Agropecuárias de Santa Catarina (Fecoagro) já fazem previsões de redução da área plantada.

 – Houve uma diminuição no interesse do plantio e até agora temos uma demanda de semente 20% inferior ao ano passado – afirma o diretor-executivo da Fecoagro, Ivan Ramos.

Em uma das afiliadas da federação, a Cooperativa Agroindustrial Alfa, a redução é ainda maior.

– Nos 65 municípios de abrangência da Cooperalfa, a média geral é de 34% de redução da área de milho – aponta Leonardo Ferronato, do setor comercial da cooperativa.

Para ele, a queda é resultado de dois fatores. Um deles é o custo de produção. Enquanto o plantio de milho exige R$ 3,2 mil de investimento, a soja demanda menos da metade, R$ 1,2 mil.

Outro motivo é o baixo preço do milho, de R$ 23,50 a saca de 60 quilos em Chapecó, contra R$ 59,50 da saca de soja. O cereal tem maior produção por hectare, mas se torna atrativo apenas quando o preço fica próximo da metade do valor da soja.

– Eu não vou plantar nenhum grão de milho – desabafa o agricultor Flávio Fonseca, de Chapecó.

No ano passado, ele plantou 40 hectares e colheu cerca de 10 mil sacas. Mesmo assim, contando as despesas com sementes, adubação, mão de obra e depreciação das máquinas, sobrou pouco.

– Quando plantei, o milho custava 

R$ 47 a saca. Agora vendi a R$ 23,24. Para cobrir o custo de produção, tem que colher 150 sacas por hectare. Se der uma estiagem, não cobre o custo – calculou.

Entidades estudam união com Argentina e paraguai

No ano passado, o preço da saca de milho chegou perto de R$ 50 para o produtor e quase R$ 60 para a indústria. Os agricultores se animaram e aumentaram a área de milho em 8% no Estado, investiram mais para aumentar a produtividade e a produção cresceu 20%, passando de 2,7 milhões de toneladas para 3,2 milhões. Porém, com o aumento, o preço despencou e agora a previsão é de redução de plantio nos três Estados do Sul.

– Tivemos um preço anormal e o agricultor investiu, mas agora temos um valor desestimulador e o plantio vai cair. A indústria tem que começar a pensar em produtores de milho integrados para evitar esse desequilíbrio – afirma o presidente da Companhia Integrada para o Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) e vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de Santa Catarina (Faesc), Enori Barbieri.

Como Santa Catarina tem pouca área para plantar, cerca de 1 milhão de hectares, sendo que 400 mil foram destinados para o milho no ano passado, produtores e indústrias da carne são obrigados a buscar o grão fora do Estado. A alternativa é trazer do Mato Grosso, mas a despesa com o frete chega a ser até maior do que o custo do produto. Por isso, entidades do setor estão buscando uma alternativa de trazer o cereal do Paraguai pela Argentina. A economia com a manobra, segundo a Secretaria de Estado da Agricultura e da Pesca, seria de até 70%.

Amanhã, haverá uma reunião de prefeitos e lideranças do Mercosul em Major Otaño, no Paraguai. Lá será tratada a possibilidade de atravessar o milho em barcas pelo Rio Paraná, até Eldorado, na Argentina, e depois seguir de caminhão por Dionísio Cerqueira, no Oeste catarinense.

Impacto na produção de carnes

Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, de Concórdia, Dirceu Talamini alerta que Santa Catarina corre o risco de perder a liderança na produção de suínos, assim como aconteceu com o mercado de aves, onde o Paraná assumiu a ponta de maior produtor do país.

– Se houver uma frustração de clima ou uma exportação muito grande, poderemos ter problema de escassez de milho, como ocorreu no ano passado – afirma Talamini.

Mesmo com safra cheia, o déficit do grão no Estado, que será de 3 milhões de toneladas em 2017, vai aumentar no próximo ano. Por enquanto há grande volume de milho disponível, o que garante bom abastecimento até o início de 2018, porém, uma estiagem pode provocar queda na produção e aumentos de preço e custos. Em 2016, por exemplo, o custo de produção de aves e suínos aumentou cerca de 30%, recuando após a boa safra deste ano.

Uma nova elevação teria impacto sobre o consumidor, pois pressionaria para cima preços da carnes e leite. O pesquisador da Embrapa sugere que o Estado comece a adotar culturas de inverno que possam ser utilizada na ração animal.

Procura por sementes diminuiu, diz secretário

O secretário de Estado da Agricultura, Moacir Sopelsa, também calcula queda de 15% a 20%. Segundo ele, nesse mesmo período do ano passado, já tinham sido solicitadas 170 mil sacas de sementes dentro do Programa Terra Boa. Neste ano, porém, foram 150 mil. No total, o programa subsidia 220 mil sacas de milho e 300 mil toneladas de calcário para serem pagos na safra. Somente neste ano serão R$ 51 milhões em subsídio.

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