Facção criminosa catarinense liderou atentados ocorridos em Santa Catarina, diz Polícia Civil Leo Munhoz/Diário Catarinense

Foto: Leo Munhoz / Diário Catarinense

A Operação Independência, feita pela Polícia Civil de Santa Catarina nesta quinta-feira contra a quinta onda de atentados ocorrida no Estado, revelou a ordem e envolvimento direto de uma facção criminosa catarinense. Dos 100 mandados expedidos, 47 de prisão temporária e 42 de busca e apreensão foram cumpridos em Florianópolis, Criciúma, Joinville, Blumenau, Navegantes, São José, Gaspar e Ilhota.

O grande objetivo da investigação era identificar e prender os principais líderes da organização, também responsável pelas outras quatro ondas de ataques registradas em SC desde 2012. O diretor adjunto da Deic, delegado Anselmo Cruz, diz que as ocorrências dos últimos dias estão ligadas ao grupo. Diferentemente do que havia sido cogitado inicialmente, de uma possível ação da facção criminosa paulista que também atua no Estado, Cruz refuta essa linha de investigação.

O  delegado-geral adjunto, Marcos Ghizoni, não quis dar detalhes dos motivos que levaram a investigação a atacar nos últimos 20 dias no Estado. Segundo ele, os trabalhos continuam e divulgar essa informação agora poderia atrapalhar a ação da polícia. Ghizoni limitou-se a confirmar que as ordens vieram da facção catarinense, sem informar se foi de dentro ou fora do sistema prisional:

— É o começo da responsabilização criminal dessas pessoas que desafiaram o Estado e agora passam a sentir a chegada da polícia nas suas portas. A festa, relativamente, foi grandiosa, mas agora chegou a hora da conta de quem a realizou.

Quase metade dos mandados expedidos pela Justiça foram contra pessoas já presas. Dos 58 procurados, 28 estão em cadeias do Estado como a Penitenciária de São Pedro de Alcântara e o Presídio de Joinville, além de um presídio federal. Os delegados não souberam dizer em qual das quatro unidades dos país ocorreu o cumprimento do mandado.

— A Polícia Civil faz a parte dela que é indiciar e subsidiar para a responsabilização criminal. Isso tudo pode subsidiar a transferência do detento para uma unidade com Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). Então a gente sabe da importância da investigação, que o apurado aqui vai virar uma denúncia lá na frente. E os presos não querem ser transferidos, tanto que é um dos motivos de descontentamento deles. Não é porque ele está preso que tem um salvo conduto para agir — explica o delegado responsável pela Divisão Estadual de Repressão ao Crime Organizado (Draco), Antonio Claudio Seixas Joca.

A comunicação entre quem está dentro da cadeia com quem está na rua é feita de diferentes formas, inclusive com o uso de celular dentro das unidades prisionais:

— Não adianta falar que não tem pelo celular, que tem. Eles estão muito articulados, são várias formas de comunicação. Também identificamos tráfico de drogas, apareceu forte. É o carro chefe dessa organização criminosa. E nessa investigação criminosa ficou mais que comprovado.

Em residências nas oito cidades, foram apreendidos drogas, dinheiro, extratos bancários e cartas da facção. O volume todo ainda não havia sido contabilizado até o final da manhã. Os delegados ressaltaram que a operação focou na facção e não nos ataques isolados. Isso será objeto de investigação das comarcas onde ocorreram as ações. Todos os envolvidos na ação desta quinta-feira devem responder pelo crime de organização criminosa.

O delegado Joca tem 30 dias para finalizar o inquérito por conta das prisões temporárias, que valem por esse prazo. No entanto, ele deve pedir a prorrogação desse limite para mais um mês.

Mulheres são presas durante operação

Entre as pessoas presas estão mulheres que fazem parte da ala feminina da facção criminosa. A maioria é composta por companheiras ou familiares de detentos e membros do grupo. Os investigadores dizem que elas são responsáveis pelo elo de comunicação entre os integrantes da facção que estão dentro das cadeias com os representantes nas ruas.

A principal líder desse movimento, segundo Joca, foi detida nesta quinta-feira. Os atos praticados pelas mulheres são considerados típicos de organização criminosas, por isso elas serão indiciadas:

— Foram identificadas diversas pessoas responsáveis pela comunicação entre as lideranças, pessoas que eram encarregadas de transmitir as informações e ordens tanto de líderes presos, quantos soltos, e de regiões diferentes — relata Cruz.

Juíza, promotor e delegado repetem equipe de 2013

Assim como na onda de atentados de 2013, quando a Polícia Civil indiciou 98 pessoas envolvidas nos ataques, o inquérito teve início em Blumenau. Por isso, o processo deve ficar sediado na cidade do Vale do Itajaí. Os responsáveis pelo caso, inclusive, serão os mesmos de quatro anos atrás.

Além do delegado Joca, que atuou nas investigações da época, o promotor Flávio Duarte de Souza e a juíza Jussara Schittler dos Santos Wandscheer, da 3ª Vara Criminal de Blumenau, estão ligados a essa apuração contra a facção catarinenses. Os dois foram os responsáveis pela expedição dos 100 mandados judicais da Operação Independência. Joca diz que a atual investigação iniciou na cidade a partir de uma informação de tráfico de drogas.

Quatro anos depois do primeiro inquérito, houve uma renovação nas lideranças da facção, segundo o delegado. Da mesma forma, também mudou o perfil de ação do grupo. Joca vê mais agressividade por parte dos líderes, o que pode ser representados nas mortes de policiais ocorridas nos ataques iniciados em 28 de agosto no Estado.

— Não podemos afirmar que os ataques vão parar, mas nossa esperança, até pelas lideranças que foram identificadas e estão diretamente envolvidas, é que eles cessem ou amenize. Além disso, o trabalho da Polícia Civil vai continuar.

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