A Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares (ICAN, em inglês) venceu o Prêmio Nobel da Paz, nesta sexta-feira (6), após uma década de esforços para proibir a bomba atômica, em um contexto de tensão com Coreia do Norte e Irã.

Setenta e dois anos depois de as bombas atômicas americanas caírem sobre Hiroshima e Nagasaki, o Comitê do Nobel quis ressaltar os incansáveis esforços da ICAN para livrar o mundo das armas nucleares. Com isso, também enviou uma mensagem às potências nucleares para que iniciem "negociações sérias" destinadas a eliminar seu arsenal.

"Vivemos em um mundo onde o risco de que utilizem as armas nucleares é o mais alto que já existiu", declarou a presidente do Comitê Norueguês do Nobel, Berit Reiss-Andersen.

"Alguns países modernizam seus arsenais nucleares, e o risco de que cada vez mais países se dotem de armas nucleares - como a Coreia do Norte - é real", acrescentou.

Após os prêmios científicos e de literatura, esperava-se que o Nobel recompensasse este ano os esforços para eliminar as armas nucleares, ou impedir sua proliferação. Nesta edição, o número de candidatos ao Nobel da Paz chegou a 318.

Em sua primeira reação ao prêmio, a ICAN criticou diretamente o presidente americano, Donald Trump, diante dos riscos de um incidente nuclear no mundo.

"A eleição do presidente Donald Trump incomodou muita gente pelo fato de que pode autorizar por si só o uso das armas nucleares", declarou a diretora da ICAN, Beatrice Fihn, à imprensa em Genebra.

"As armas nucleares não dão segurança, nem estabilidade", como demonstra o fato de as pessoas nos Estados Unidos, no Japão, ou na Coreia do Norte, não se "sentirem especialmente seguras", acrescentou.

"Esse prêmio não vai contra ninguém", destacou Reiss-Andersen.

- 'Um mundo sem armas nucleares' -

Reunindo centenas de ONGs, a ICAN milita incansavelmente há quase dez anos pela supressão do armamento nuclear.

Impulsionou um histórico tratado de proibição das armas nucleares que foi adotado por 122 países em julho, embora seu alcance seja, sobretudo, simbólico, dada a ausência das nove potências nucleares entre os signatários.

Depois do anúncio do prêmio, os Estados Unidos voltaram a afirmar que "não assinarão" o tratado de proibição de armas atômicas apoiado pela ICAN, mas garantiram seu compromisso para "criar as condições para um desarmamento nuclear".

"Esse tratado não fará o mundo mais pacífico, nem conseguirá a destruição de nenhuma arma nuclear, nem fortalecerá a segurança de nenhuma Estado", declarou à AFP um porta-voz do Departamento de Estado americano, ressaltando que o texto promovido pela ICAN sobre esse tema não é apoiado por nenhum país possuidor de armas atômicas.

Este Nobel é outorgado em um momento em que Donald Trump deve certificar ao Congresso americano, até 15 de outubro, que o Irã respeita os compromissos do histórico acordo de 2015. Este acordo impõe estritas restrições ao programa nuclear iraniano em troca da retirada das sanções.

Segundo o jornal "The Washington Post", Trump teria decidido não certificá-lo, o que abriria caminho para a imposição de novas sanções a Teerã.

O prêmio para a ICAN é uma lembrança de que "hoje, mais do que nunca, precisamos de um mundo sem armas nucleares", tuitou o secretário-geral da ONU, António Guterres.

Sobreviventes dos bombardeios atômicos nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, ao fim da Segunda Guerra Mundial, também manifestaram sua alegria.

"Estou feliz que a ICAN - que, como nós, atua para acabar com as armas nucleares - tenha vencido o Prêmio Nobel da Paz", declarou, citado pela emissora NHK, Sunao Tsuboi, de 92 anos, que ficou gravemente queimado na explosão da bomba lançada contra Hiroshima, após a qual sofreu com um câncer.

A então presidente da conferência da ONU que negociou o Tratado sobre a Proibição das Armas Nucleares, a embaixadora costa-riquenha na ONU em Genebra, Elayne Whyte, também felicitou a ICAN.

Este Nobel deve trazer "uma nova etapa de grande impulso às negociações para o desarmamento nuclear", manifestou Elayne.

Na lista de vencedores, a ICAN sucede ao presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, premiado em 2016 por seus esforços para acabar com mais de meio século de conflito no país sul-americano.

Fundada em 2007, em Viena, durante uma conferência internacional sobre o tratado de não-proliferação nuclear, a ICAN tem sua sede em Genebra, nas instalações do Conselho Ecumênico das Igrejas, outra organização internacional.

Conta com 424 ONGs associadas em 95 países e com o apoio de inúmeras personalidades, entre elas dois vencedores do prêmio Nobel da Paz - o arcebispo sul-africano Desmond Tutu (1984) e a americana Jody Williams, agraciada em 1997 em reconhecimento pela Campanha Internacional para a Proibição das Minas Antipessoais.

Ainda que a quantidade de ogivas tenha se reduzido em 30 anos - passando de 64.000, em 1986, para pouco mais de 9.000, em 2017, segundo o Bulletin of the Atomic Scientists (BAS) -, o número de países com armas nucleares aumentou.

Hoje, nove países fazem parte do clube nuclear: Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel.

A ICAN receberá o prêmio - uma medalha de ouro, um diploma e um cheque de nove milhões de coroas suecas (US$ 1,1 milhão) - durante uma cerimônia em Oslo em 10 de dezembro, data da morte do criador dos prêmios, o filantropo sueco e inventor da dinamite, Alfred Nobel.

* AFP

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