"São empresários do tráfico", diz delegado da PF sobre rede criminosa que funcionava a partir de SC Salmo Duarte/Agencia RBS

Foto: Salmo Duarte / Agencia RBS

Empresários do tráfico internacional de cocaína, criminosos interligados com a máfia italiana, carteis do México e fornecedores de drogas para facções que inflamam violência nas ruas.
As operações Oceano Branco e Contentor, desencadeadas pela Polícia Federal em Santa Catarina na semana passada, quebraram frentes do crime organizado responsável pelo escoamento de cocaína do Estado à Europa.

Por aviões, estradas e mar, mais de 50 pessoas foram investigadas e presas suspeitas de série de crimes que movimentaram milhões nos últimos anos em negócios ilícitos - os nomes seguem em sigilo determinado pela Justiça Federal nos inquéritos. Mais de de 10 toneladas de cocaína foram apreendidas em portos catarinenses.

Segundo a PF, a quantia é considerada recorde no Brasil e figura entre as maiores entre países da América do Sul. Confira a entrevista com o delegado da repressão a entorpecentes da PF em Joinville responsável pela operação Contentor, Alessandro Netto Vieira:

A Polícia Federal está convicta que descobriu uma nova rota de modal marítima por portos de Santa Catarina ou isso já acontecia há muito tempo?
Acreditamos que não acontecia há muito tempo. Os portos mais visados sempre foram os do Sudeste do País, Santos (SP), Vitória (ES). A gente percebeu é que quanto mais afunilamos essa rota de saída eles (traficantes) vão procurando outros portos, como o de Rio Grande (RS). A lógica é essa: vamos fechando as portas e eles vão procurando outras saídas alternativas.

Qual a dimensão dos crimes de corrupção entre empregados e empresas investigados?
No caso da Operação Contentor verificamos que são funcionários de uma empresa de despacho aduaneiro. Elas são autorizadas a funcionar pela Receita Federal para fazer vistoria de contêiner, autorização de encaminhamento. Só que elas não têm conhecimento algum e alguns maus funcionários - detectamos três - que por trabalhar nessas empresas tinham acesso a informações privilegiadas de navios, rotas, ancoragens, contêineres e até de cargas que seriam levadas. Eles vendiam essas informações por R$ 10 mil.

E as empresas de fachadas?
Alguns fornecedores de São Paulo tinham empresas como imobiliária aqui (Joinville), em Florianópolis; outro de despacho de importação e exportação; outro de eletroeletrônicos. São fornecedores com capacidade de adquirir a droga e a trazer para cá. Detectamos que dois fornecedores foram para a Bolívia pelo menos três vezes nesses últimos dois meses.

A PF divulgou que um avião usou pista em São Francisco do Sul para trazer droga. Aconteceu uma ou várias vezes?
Era uma rota mesmo, pegamos em três oportunidades em que a droga chegou aqui de avião. Em uma das apreensões a cocaína era boliviana. São aviões bimotores com capacidade para transportar 600 kg a 700 kg de cocaína dependendo da adaptação.

Há uma lei do abate no País (Aeronáutica tem o respaldo legal para derrubar aeronaves suspeitas de tráfico), medida então que não coibiu esse tipo de tráfico em SC. Por que?
Às vezes passa despercebido, não sei qual é o artifício. Teria que conversar talvez com alguém da Aeronáutica para saber qual é o artifício que um piloto desses poderia usar para passar despercebido da Força Aérea. Esses pilotos maquiam planos de voo, falsificam para dar aparência de um voo regular, isso é fato.

Um dos líderes seria um homem preso em Barra Velha com cocaína há mais de dez anos. Como está novamente agindo?
O delegado Fábio (Mertens, da PF, responsável pela operação Oceano Branco) poderia esclarecer melhor, mas o que eu sei que é um cidadão que já tinha sido preso em flagrante e na época fazia entrega a varejo. Essa prisão não foi suficiente para interromper a escalada criminosa do cara, tanto que agora alcançou grande patrimônio.

Foram apreendidos carros de luxo, jet-sky... Até onde será o sequestro de bens?
Nesse primeiro momento pedimos a apreensão dos bens para ver o que vai ser encontrado Num segundo momento pediremos o sequestro dos bens, pois vai ser aberta agora a investigação de lavagem de dinheiro, onde calcularemos o montante.

Há um mexicano envolvido e foragido (camuflava cocaína em pedras de granitos nos contêineres). Até que ponto a PF suspeita que há envolvimento de carteis mexicanos na rota do tráfico?
Daqui (Joinville) não sei se tem cartel mexicano, mas apareceu um elemento de nacionalidade italiana com contato de um jordaniano que está foragido e é procurado pela Interpol, que parecia ter contato com a máfia italiana. Há essa possibilidade.

Como se iniciou a apuração sobre drogas em navios de portos no Estado?
No caso da Oceano Branco foi uma carga de mais de 500 quilos que apareceu (dezembro de 2014) boiando no mar de Barra Velha. Em relação à Contentor foi a partir de 40 quilos de cocaína embutida dentro uma parede falsa de um contêiner ano passado em Itapoá.

SC registra uma guerra de facções criminosas. Quais efeitos têm essas operações no combate à violência no Estado?
No meu caso aqui a gente detectou que um envolvido, fornecedor de SP, tinha ligação com o PCC (Primeiro Comando da Capital). Estamos falando de organização criminosa que não opera de forma violenta. O que os caras fazem são "negócios". São empresários do tráfico. Fornecem drogas para pessoas que fornecem para PCC, PGC, o que é mais grave ainda porque eles têm poder aquisitivo de ir lá em Santa Cruz de la Sierra negociar a carga de droga, alugar avião, fazer esse avião sair da Bolívia e chegar aqui.

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