O secretário de Estado americano, Rex Tillerson, manteve conversações com o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, em Ancara, com vistas a reduzir as tensões entre os dois aliados da Otan, que voltaram a se intensificar após as operações turcas em curso na Síria.

A missão prioritária do chefe da diplomacia do governo Trump será acalmar Ancara sobre a política dos Estados Unidos na Síria, uma disputa que deu início à maior crise bilateral desde a guerra no Iraque, em 2003.

Segundo autoridades turcas, Erdogan expressou "de forma clara" as "expectativas" da Turquia relativas especialmente à Síria durante a longa reunião mantida com Tillerson nesta quinta-feira (15).

"Durante a reunião, os eventos regionais, a começar pela Síria e pelo Iraque, a questão da luta antiterrorista e das relações bilaterais, foram abordadas (...) As expectativas da Turquia sobre estas questões foram transmitidas de forma clara" ao senhor Tillerson, segundo estes funcionários.

Tillerson, ex-diretor da gigante da energia Exxon Mobil, que faz uma visita com várias escalas pelo Oriente Médio, reuniu-se com Erdogan no palácio presidencial, em Ancara.

Ele se reunirá com o chefe da diplomacia turca, Mevlut Cavusoglu, na manhã da sexta-feira.

A operação lançada pela Turquia contra a milícia curda das Unidades de Proteção do Povo (YPG), na região síria de Afrin, adicionou um novo problema potencialmente insuperável a um relacionamento bilateral crescentemente tenso.

Analistas afirmam que o nível das tensões é simular ao de 2003, quando a Turquia se recusou a permitir que tropas americanas operassem a partir de seu território durante a guerra no Iraque ou inclusive às consequências da invasão turca a Chipre em 1974.

A operação turca contra as YPG, que Ancara considera um grupo terrorista, levou tropas turcas a combater uma milícia que é aliada próxima dos Estados Unidos na luta contra os extremistas do grupo Estado Islâmico (EI).

Falando em Beirute antes de se reunir com Erdogan na Turquia, Tillerson negou que Washington tenha municiado com armamento pesado as YPG e, portanto, não poderia recolher este tipo de armas, como Ancara desejava.

"Nós nunca demos armas pesadas às YPG, portanto não há nenhuma [arma] para pegar de volta", disse Tillerson.

- Enfraquecendo os esforços anti-EI -

No início do mês, Erdogan acusou Washington de enviar milhares de carregamentos de armas por terra e ar às YPG na Síria, perguntando porque os Estados Unidos ainda permanecia ali se os extremistas haviam sido derrotados.

E Erdogan elevou o tom, ao advertir as tropas americanas a deixarem Manbij, cidade controlada pelas YPG em Afrin, leste da Síria, despertando temores de um confronto entre os dois aliados.

Ele também advertiu que os Estados Unidos corriam o risco de levar um "tapa otomano" na Síria, um golpe com as costas das mãos que, segundo a lenda, poderia matar um oponente de uma só tacada.

Para Ancara, as YPG são um braço do proscrito Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), incluído na lista negra de organizações terroristas pelos Estados Unidos e a União Europeia.

Mas para Washington, as YPG são aliadas na luta contra o EI e as operações turcas são uma distração dos esforços para assegurar que os extremistas islamitas sejam derrotados permanentemente.

Nesta semana, Cavusoglu alertou Washington que os vínculos eram um "ponto crítico" no qual as relações seriam "reparadas ou completamente comprometidas".

Não ficou claro se a visita de Tillerson poderia fazer qualquer avanço.

Depois de um encontro com o secretário da Defesa americano, Jim Mattis, em Bruxelas, o ministro turco da Defesa, Nurettin Canikli, disse que Ancara queria ver as YPG retiradas do grupo guarda-chuva das Forças Democráticas Sírias (FDS).

Ele afirmou que Mattis havia prometido um maior apoio na luta de Ancara contra o PKK em suas bases de retaguarda no norte do Iraque.

- Problemas em série -

A discussão sobre a Síria é, no entanto, apenas uma de uma série de questões que afetam as relações entre Turquia e Estados Unidos.

Os laços bilaterais ficaram comprometidos depois do golpe de Estado fracassado de 2016, com a Turquia incomodada pela sensação de falta de solidariedade dos Estados Unidos e irritada pela recusa de Washington de extraditar o clérigo Fethullah Gulen, radicado na Pensilvânia, apontado como responsável por ordenar a intentona golpista.

No mês passado, Ancara reagiu furiosamente à condenação em Nova York do banqueiro turco Mehmet Hakan Atilla por acusações de violar as sanções contra o Irã.

E Washington expressou preocupação de que vários de seus cidadãos - assim como pelo menos dois funcionários turcos de missões americanas - tenham sido capturados na sequência da repressão ao golpe.

Na semana passada, o cientista da Nasa Serkan Golge, com dupla nacionalidade, foi preso por sete anos e meio por pertencer ao movimento de Gulen, enquanto o Departamento de Estado informou que ele havia sido condenado "sem evidências confiáveis".

Outro caso foi o do pastor americano Andrew Brunson, que dirigia uma igreja em Esmirna, e que foi detido com acusações similares desde outubro de 2016.

Tais tensões atingiram a opinião pública na Turquia, onde 83% das pessoas têm percepções desfavoráveis sobre os Estados Unidos, segundo uma pesquisa divulgada esta semana pelo Centro de Progresso Americano.

* AFP

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