"Queria que as pessoas discutissem", diz carnavalesco que criou o enredo político da Paraíso do Tuiuti Mauro PIMENTEL/AFP

Ala de manifestantes batendo panela foi uma das mais destacadas no desfile da escola

Foto: Mauro PIMENTEL / AFP

Se a Paraíso do Tuiuti era uma escola de samba pouca conhecida do público de fora do Rio de Janeiro, o seu último desfile pelo Sambódromo da Marquês de Sapucaí repercutiu muito pelo país e ficará marcado na história do Carnaval carioca. Após apresentação do Grupo Especial no domingo (11), foi difícil não ver alguém compartilhando nas redes sociais fotos do presidente "vampiro", ou da comissão de frente composta de negros acorrentados — até mesmo de uma ala de camisas verde-amarelas batendo panela.

 Jack Vasconcelos, carnavalesco responsável pelo enredo Meu Deus! Meu Deus! Está extinta a escravidão?, contribuiu  para o que a noite fosse considerada uma das mais politizadas em anos. Em entrevista ao programa Timeline, na manhã desta terça-feira (13), Jack explicou que, partindo dos 130 anos da assinatura da Lei Áurea e seguindo para uma crítica social e política do Brasil, o desfile teve a intenção de fazer com que a população refletisse, e não somente "replicasse ideias".

(A intenção era) Conseguir falar com a população, e  pedir para ela pensar um pouco. Não replicar ideias que chegam através de grandes mídias, de campanhas. Muitas vezes essas ideias prejudicam, e a população não percebe — disse o carnavalesco.

Abrindo o desfile com a comissão de escravos e recheando a apresentação de símbolos como ambulantes e carteiras de trabalho, a escola, segundo Jack, quis propor uma reflexão ampla sobre a condição dos trabalhadores brasileiros.

— A gente montou esse enredo para falar sobre a exploração do trabalho através dos tempos. E hoje? Esse conceito escravocrata mudou? Ou está mascarado com algum discurso de "melhora de mercado"? — questionou o carnavalesco.

/PARAÍSO DO TUIUTIRJ - CARNAVAL 2018/RIO/PARAÍSO DO TUIUTI - CIDADES - Desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti no Grupo Especial do Carnaval do Rio de   Janeiro 2018, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no centro da cidade, nesta segunda-   feira, 12.   12/02/2018 - Foto: THIAGO RIBEIRO/AGIF/ESTADÃO CONTEÚDOEditoria: CIDADESLocal: APERIBEIndexador: THIAGO RIBEIROFotógrafo: AGIF
Comissão de frente composta por escravos abriu desfile da Paraíso do Tuiuti na primeira noite do Grupo EspecialFoto: THIAGO RIBEIR / AGIF/ESTADÃO CONTEÚDO

Apesar do enredo ser fundamentado na condição dos negros na sociedade, o que mais chamou a atenção foram as críticas diretas ao governo de Michel Temer, representado no último carro por um homem fantasiado de um vampiro adornado por uma faixa presidencial. Também houve um deboche com os manifestantes que saíram às ruas entre 2013 e 2014 vestindo camisas da seleção brasileira de futebol para pedir o impeachment de Dilma Rousseff.

Essas representações foram elogiadas por movimentos e políticos ligados a partidos de esquerda. Questionado se havia se posicionado politicamente, Jack disse que a interpretação do enredo "era de cada um". Para ele, o que deve importar é o efeito causado pelo desfile, que, em sua opinião, foi um objetivo alcançado.

— As pessoas estão discutindo sobre. Isso para mim é o ponto. Independentemente do que acredito internamente, o que queria de verdade era que as pessoas discutissem. Isso acho que consegui. E estou satisfeito — declarou.

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