Na noite de 23 de outubro de 2002, com a confiança e a responsabilidade dos votos de 39 milhões de brasileiros, o então presidenciável Luiz Inácio Lula da Silva (PT) desembarcou no aeroporto Hercílio Luz, em Florianópolis, para saudar o Estado que lhe deu a maior votação percentual do país no primeiro turno. Recebido por Luiz Henrique da Silveira (PMDB) e José Fritsch (PT), segundo e terceiro colocados na disputa pelo governo catarinense, ele seguiu para o Largo da Alfândega onde uma multidão de 30 mil pessoas o aguardava com entusiasmo. Quase uma euforia.

O comício que encerrou a campanha do segundo turno tinha um desenho pouquíssimo comum para aquela eleição. Por aqui, o PMDB de LHS – e também de Rita Camata, vice na chapa presidencial de José Serra (PSDB) – tinha declarado apoio a Lula. E o petista veio à Ilha retribuir, endossando a candidatura do peemedebista.

No palanque com 10 partidos, Fritsch, Luiz Henrique e Lula estavam rodeados de lideranças do PT, como a então senadora eleita Ideli Salvatti e o então prefeito de Blumenau Décio Lima, e por caciques do PMDB como o então candidato a vice-governador Eduardo Pinho Moreira e o à época senador Casildo Maldaner, que presidia a sigla.

– Já perdi três eleições e vou ganhar esta quarta porque me preparei para ser presidente da República. Vou provar que um torneiro mecânico tem mais competência para fazer política do que grande parte da elite brasileira – declarou Lula diante de um mar de bandeiras vermelhas tremulando.

Era a escala final para a apoteose depois de três tentativas frustradas de chegar ao Palácio do Planalto. Era a consolidação definitiva da figura do homem retirante, de origem humilde e da luta de classes que estava pronto para chegar ao poder e promover as mudanças que o Brasil precisava. 

– Quando ele veio aqui tinha as feridas do nosso povo. Era o depositário da esperança do povo brasileiro – relembra o deputado Décio Lima (PT).

Naquela época, a força dessa esperança era tão grande que para muitos – inclusive para o candidato à Casa d’Agronômica derrotado em 2002, Esperidião Amin – a vinda do petista a Florianópolis foi fundamental para garantir os votos que faltavam para a vitória de LHS.

– O principal mote do comício era uma promessa que não foi cumprida como o enunciado. O Lula em 2002 veio a SC e prometeu que não privatizaria o Besc, mas foi no seu governo que o banco foi federalizado efetivamente. E o comício decidiu a eleição no Estado. O PMDB fazia parte da chapa do Serra e aqui apoiou o Lula. Foi uma decisão política que deu certo e representou a captação dos votos decisivos. E tenho certeza que agora (quando o petista voltar a SC em caravana em março) o Casildo (Maldaner) vai estar no aeroporto com bandeirinha na mão – brinca Amin.

A referência é ao gesto crucial do PMDB catarinense em favor do PT naquela época, praticado pelo então presidente do partido no Estado, Casildo Maldaner. Disputando a reeleição ao Senado, ele definiu por conta própria, no fim do primeiro turno, que era preciso sair de “cima do muro”. Vendo Amin crescer nas pesquisas e temendo que o eleitorado do PT se dividisse no segundo turno no caso do PMDB não declarar um apoio, Maldaner bateu o martelo. Lembra que o empurrão que faltava veio quando assistiu uma propaganda eleitoral que mostrava Serra abraçando o rival de LHS:

– Foi uma posição que tomei no fim do dia e larguei uma nota, sem reunir a Executiva, como presidente, mas era minha decisão como pessoa. Eu perdi a eleição, porque o PT não tinha espaço para um segundo voto. Tinham o Milton Mendes e a Ideli de candidatos, mas eu era o capitão do time. Não me arrependo, porque o Luiz Henrique ganhou, elegemos o Volnei Morastoni deputado e o Lula começou bem. Era um governo de esperança.

2018

Lula volta a Santa Catarina em 24 de março de 2018, depois de ter recebido a confiança e a responsabilidade do voto de 52 milhões de brasileiros que o elegeram no segundo turno de 2002 e de mais 58 milhões que o mantiveram no Planalto em 2006. Retorna com a experiência de visitar dezenas de países, de fazer discursos na Organização das Nações Unidas (ONU) e ter índices sócio-econômicos invejáveis durante seu tempo no poder. Mas volta, também, com o peso de ser réu em sete ações e estar condenado a 12 anos de prisão em uma delas.

A passagem pelo Estado ocorrerá depois da nova etapa de sua caravana começar o percurso pelo Rio Grande Sul, com ponto de partida na emblemática São Borja de Getúlio Vargas e João Goulart depois segue para outras cidades no Estado vizinho. Por aqui os atos começam em Florianópolis, para onde ainda não se sabe se virá de avião ou de ônibus.  Estão confirmados os atos na Capital e em Chapecó nos dias 24 e 25 deste mês. Em Santa Catarina ele também irá a Nova Erechim ou Pinhalzinho e São Miguel do Oeste. 

– O Lula, dentro dos acontecimentos graves de maculação da democracia, retirada de direitos e de entreguismo do patrimônio nacional, torna-se o único depositário da esperança de um reencontro para o país. Lula é a biografia que prova que só ele é a esperança – defende Décio Lima (PT).

Pode-se dizer mesmo que a principal semelhança entre as visitas nesse intervalo de 15 anos é a comoção que o ex-presidente causa. Já o motivo que desperta essa emoção é uma das principais diferenças. Até a direita admite, concorde ou não com a premissa, que em 2002 Lula simbolizava a crença de uma mudança profunda em um país tão desigual. Hoje, mais do que nunca nos últimos anos, a divisão impera.

– O Lula significava avançar nas áreas sociais, esse era o objetivo e isso ficou muito nítido na campanha. A sequência teve ações que se desviaram do objetivo maior que era melhorar a economia, consolidar benefícios sociais. Mas não apenas dando Bolsa-Família, dando oportunidade para as pessoas crescerem, terem emprego. Até que veio a desgraça absoluta do governo Dilma. Começou com o mensalão no governo Lula e depois veio a Dilma, que não tinha embocadura pra ser presidente. E o Lula acabou pagando uma conta muito alta desse desgoverno que provocou tudo isso – diz o governador Eduardo Pinho Moreira (PMDB).

Para a militância fiel que acusa Temer e companhia de destruírem um legado da era petista, Lula é o único caminho e a condenação judicial faz parte do processo de golpe iniciado com o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT).

– É o momento que o Lula quer dialogar com os problemas sociais que SC possa ter e também um momento de reação política do partido, do movimento social, da defesa dele como candidato. Ele é o plano A, B e C. O povo quer votar nele e esse é um dos motivos para tentar impedir a candidatura dele. Tem que fazer esse movimento político muito forte, é necessário esse enfrentamento – afirma o ex-deputado federal Cláudio Vignatti.

E há ainda a esquerda que já esteve ao lado de Lula e não está mais. Para boa parte ela, o ex-presidente é símbolo de uma esperança que se perdeu pelo caminho de seus atos.

– O Lula era alguém que o povo brasileiro amava. Mas na mesma eleição (de 2002), o Henrique Meirelles foi eleito deputado federal pelo PSDB e acabou convidado pelo Lula para ser presidente do Banco Central, que manda mais na economia do país do que o presidente da República. Ele entregou a economia para o capital financeiro. Hoje não se permite mais o reformismo fraco. O Lula vem com essa conversa e não existe mais espaço pra isso – declara o vereador de Florianópolis Afrânio Boppré (PSOL), que em 2002 foi eleito deputado estadual pelo PT e estava no palanque em Florianópolis. Ele deixou a sigla em 2005, por considerar que, no poder, as estratégias do partido negaram suas origens.

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