A direita liderada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, grande opositor do acordo de paz com as Farc, venceu as eleições legislativas de domingo na Colômbia, que marcaram a estreia dos ex-guerrilheiros nas urnas.

Apesar de não ter conquistado a maioria em nenhuma das duas Câmaras, com 97% das urnas apuradas, a vitória da direita provoca questionamentos sobre a implementação do pacto de paz que desarmou aquela que foi a guerrilha mais poderosa da América Latina.

As forças mais críticas do acordo terão margem suficiente para impor a agenda e serão determinantes nas eleições presidenciais de 27 de maio.

"Muito obrigado a todos os colombianos que nos apoiaram, seguimos nesta tarefa pela pátria, por nossa democracia, com a ajuda de Deus", afirmou Uribe, senador com o maior número de votos.

Durante seus dois mandatos, que terminarão no dia 7 de agosto, o presidente Juan Manuel Santos governou com uma coalizão de centro-direita favorável ao acordo de paz, que resultou na criação do partido Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc).

Apesar de ter uma representação garantida no próximo Congresso bicameral (10 de 280 cadeiras), a outrora organização armada teve que disputar a eleição como parte dos compromissos assumidos para terminar um conflito de meio século.

O partido Farc também desejava disputar a eleição presidencial, mas desistiu por problemas de saúde de seu líder e candidato, Rodrigo Londoño (Timochenko).

Esta foi a primeira vez que os colombianos compareceram às urnas sem a ameaça da já dissolvida guerrilha e sob uma trégua do Exército de Libertação Nacional (ELN), último grupo rebelde ativo do país.

- Bancada forte -

Com uma apuração parcial, o partido de Uribe, Centro Democrático, conseguiu manter seus 19 senadores e ampliou para 32 o número de deputados, 13 a mais que na legislatura atual.

O ex-presidente conquistou a reeleição ao Senado com 860.000 votos.

Ao lado do Mudança Radical, do Partido Conservador e de forças cristãs, os movimentos de direita somam 134 de 280 cadeiras. Os dois primeiros, que foram aliados de Santos, questionam partes do acordo de paz negociado durante quatro anos.

No campo da esquerda, Polo Democrático Alternativo, Lista da Decência, Partido Aliança Verde e Farc somam até o momento 44 cadeiras.

Embora dificilmente a direita consiga mudar de forma substancial o acordo de paz, sua votação pode afetar a implementação do sistema de justiça estabelecido com a ex-guerrilha para atender milhões de vítimas da guerra.

A direita também tem grandes chances de chegar à presidência, o que dificultaria um acordo com o ELN, que negocia a paz com Santos.

O senador Iván Duque e o ex-guerrilheiro Gustavo Petro serão os candidatos da direita e da esquerda, respectivamente, para as presidenciais de maio na Colômbia, após vencerem as primárias de domingo.

Em sua estreia nas urnas, o partido Farc obteve uma votação mínima de 84.000 votos, equivalente a 0,46% do total.

O novo partido fracassou na tentativa de aumentar sua representação no Parlamento, após uma campanha marcada por incidentes, incluindo a suspensão de eventos por tentativas de agressão a seus candidatos.

O acordo de paz permite aos ex-comandantes rebeldes uma ação política, mesmo quando ainda não confessaram seus crimes e compensaram as vítimas, uma fórmula estabelecida para que recebam penas alternativas a prisão.

E este ponto é o que mais irrita Uribe e a direita, que venceram o plebiscito sobre o acordo de paz em paz em 2016 e forçaram uma renegociação de certos pontos do acordo.

* AFP

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