De herdeiro de Tancredo a possível réu na Lava-Jato, relembre a trajetória de Aécio Neves  Pedro França/Agência Senado/Divulgação

Foto: Pedro França / Agência Senado/Divulgação

Nesta terça-feira (17), a partir das 14h, a 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) poderá escrever um novo capítulo na carreira política do senador Aécio Neves (PSDB-MG). Caso a maioria dos cinco ministros do colegiado aceite denúncia contra o tucano por corrupção passiva e obstrução de Justiça, será a primeira vez que o político se torna réu.

Os ministros vão avaliar a peça acusatória apresentada em junho do ano passado pelo então procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Aécio foi denunciado após aparecer em gravação de Joesley Batista, um dos donos da JBS, pedindo R$ 2 milhões. A PGR sustenta que o valor seria propina. O senador nega, alegando que o dinheiro foi resultado de um empréstimo firmado entre ele e o empresário.

Aécio pode virar réu por R$ 2 milhões de Joesley

Veja a trajetória do político mineiro até o julgamento desta terça-feira:

Primeiros passos na política

Quarenta e cinco anos atrás, Aécio era uma grande promessa. Quando entrou na política, ao se envolver na campanha para governador do avô Tancredo Neves, "Aecinho", como era chamado, tinha um futuro esperançoso: filho de uma família abastada de Minas Gerais que atuava na política, ele aprendeu no dia a dia a arte de conquistar votos.

Seu pai, o advogado Aécio Ferreira da Cunha – morto em 2010 –, foi político: atuou como deputado estadual e federal, com passagens por partidos como Arena e PDS (de apoio à ditadura). O avô paterno, Tristão da Cunha, integrou o antigo Partido Republicano Mineiro (PRM), passou pelo Congresso e participou da gestão do presidente Juscelino Kubitschek (PSD) na década de 1950.

Aos 12 anos, Aécio se mudou com a família para o Rio de Janeiro. Não teve dificuldades de adaptação: adotou o estilo de vida dos filhos da elite carioca e, nos tempos de ditadura, não chegou a militar no movimento estudantil. Suas paixões eram a praia e os jogos de futebol. Antes de entrar na faculdade de Economia da PUC-Minas, fez intercâmbio nos Estados Unidos e viajou de mochila pela Europa.

Na transição para a idade adulta, tornou-se um assíduo frequentador da noite carioca. Assim começou a fama de bon vivant que até hoje o acompanha.

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O começo na política

Entrou na política aos 19 anos, ainda no Rio, quando passou a atuar como secretário de gabinete parlamentar no mandato do pai na Câmara dos Deputados. A história causou polêmica quando veio à tona – durante a campanha tucana à Presidência, Aécio reconheceu o cargo, em nota, e informou que cuidava da agenda do pai. Mas negou irregularidades, argumentando que, na época, os funcionários comissionados não eram obrigados a atuar no Distrito Federal.

Aécio Neves e seu avô, Tancredo Neves.Data: 1982Foto do álbum de família
Tancredo ao lado do neto, AécioFoto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

Aos 21 anos, Aécio foi convocado, em 1981, por Tancredo para acompanhá-lo na campanha ao governo de Minas. Ficou claro que o ex-ministro de Getúlio Vargas vislumbrava no neto um sucessor. Ao lado do avô, Aécio tomou gosto pelos palanques e acabou virando secretário particular do governador eleito pelo PMDB, em 1982. Ao mesmo tempo, dedicou-se a concluir a faculdade de Economia.

Em janeiro de 1985, acompanhou Tancredo Neves na campanha à Presidência. Com a morte do avô, Aécio perdeu a maior referência na carreira política. Superado o luto, Sarney ofereceu um cargo na direção da Caixa Econômica Federal ao jovem mineiro. Menos de um ano depois, Aécio deixou o posto para estrear nas urnas. Foi a primeira de uma série de vitórias.

Beneficiado pela comoção com a morte de Tancredo e pela popularidade do avô, assumiu uma vaga de deputado federal pelo PMDB e participou da Assembleia Constituinte. Foi reeleito para mais três mandatos consecutivos e, em 2001, aos 41 anos, foi presidente da Casa.

 O governador Aécio Neves, durante cerimônia de comemoração pela posse como primeiro governador reeleito do Estado, reassumiu o compromisso de construir um novo tempo para Minas.
Posse como governador eleito de Minas GeraisFoto: Eugênio Sávio / Eugênio Sávio

Em 2002, Aécio decidiu entrar na briga pelo governo de Minas. Venceu no primeiro turno. Quatro anos depois, repetiu o feito, com 77% dos votos válidos. Após o insucesso de Serra nas eleições presidenciais, o nome de Aécio cresceu. Em 2013, ele foi eleito presidente nacional do PSDB e passou a costurar os apoios para concorrer ao Planalto.

Eleições presidenciais

Na eleição de 2014, Aécio foi atacado por ser aliado do senador e ex-presidente do Cruzeiro Zezé Perrella (PDT-MG), pai do deputado estadual Gustavo Perrella (SD-MG). Pai e filho foram alvo de uma operação da Polícia Federal que encontrou um helicóptero de uma empresa de Gustavo com 450 kg de pasta base de cocaína. Os dois não foram indiciados judicialmente por não haver provas suficientes.

"A Presidência da República não é desejo, mas destino", comentava com aliados, dando a entender que, mais cedo ou mais tarde, ocuparia o cargo. Não deu certo: em 2014, acabou com 48,36% dos votos, enquanto Dilma obteve 51,64%.

Após a corrida para a Presidência, a derrocada

A derrota para Dilma foi o início de uma queda vertiginosa. Começou quando Aécio foi citado em várias das mais de 70 delações da Odebrecht por supostamente praticar caixa 2 na campanha e receber propina para ajudar a empreiteira em obras em Minas Gerais e no setor elétrico. Segundo Marcelo Odebrecht, o tucano pediu pelo menos R$ 15 milhões em propina no final do primeiro turno da campanha presidencial.

Nas planilhas da Odebrecht, Aécio aparece como "Mineirinho". As delações indicam que a empreiteira investia nele desde que era governador de Minas Gerais, em 2003. Se Aécio chegou a ser aclamado na Avenida Paulista na campanha presidencial de 2014, no ano passado foi vaiado durante as manifestações a favor do impeachment de Dilma. 

A partir de então, sua trajetória política foi ladeira abaixo. O jornal O Globo divulgou áudios de conversas entre Joesley Batista, empresário da JBS, e Aécio, entregues à PGR. Joesley diz que Aécio "é bandidão" e ainda gravou o tucano pedindo R$ 2 milhões para supostamente pagar despesas da sua defesa na Lava-Jato. A entrega do dinheiro, em etapas e em malas de R$ 500 mil cada vez, foi filmada em uma ação organizada com a Polícia Federal. A defesa alega que o dinheiro seria um "empréstimo entre amigos".

Na conversa com Joesley, Aécio ainda tenta, na visão da PGR, embaraçar a Lava-Jato: ele fala sobre trocar o comando do Ministério da Justiça, critica a condução de inquéritos e menciona a necessidade de aprovar projetos de lei que poderiam atrapalhar as investigações.

Em 17 de maio, o senador foi afastado do cargo pelo ministro do STF Edson Fachin, a pedido da PGR. Poucos dias depois, sua irmã e braço direito, Andrea Neves, foi presa em casa, em Belo Horizonte (MG). 

O PSDB, na expectativa de blindar sua própria imagem, não viu outra saída senão afastar Aécio da presidência da sigla – cargo que ocupava desde 2013. A decisão passou um recado: o mineiro perdeu espaço na legenda. Mesmo após retomar o mandato no Senado, 46 dias depois, por decisão do ministro Marco Aurélio, o senador não voltou a ocupar a presidência da legenda.

Novo afastamento

Após a PGR denunciar Aécio pelos crimes de corrupção passiva e obstrução da Justiça, a 1ª Turma do Supremo afastou o tucano de suas funções parlamentares, em 26 de setembro. Ele também passou a ser obrigado a se recolher em casa à noite. 

Em seu voto, o ministro Luiz Fux afirmou que a atitude mais elogiosa a ser tomada por Aécio, desde o início, seria se licenciar do mandato para provar sua inocência.

– Já que ele não teve esse gesto de grandeza, nós vamos auxiliá-lo a pedir uma licença para sair do Senado Federal, para que ele possa comprovar à sociedade a sua ausência de culpa – disse.

Após recurso, o plenário do STF decidiu que cabia ao próprio Senado dar o aval sobre o futuro de Aécio. O placar na Corte foi de 6 votos a 5 – com o voto decisivo sendo dado pela presidente do Supremo, Cármen Lúcia.

Em outubro, com 44 votos favoráveis e 26 contrários, os senadores derrubaram as medidas cautelares impostas pelo STF a Aécio. Com a decisão, o tucano retomou o mandato e ficou livre do recolhimento noturno que havia sido determinado pela Primeira Turma do STF.

Análise da denúncia

Na semana passada, o STF marcou para esta terça-feira (17) o julgamento sobre o recebimento de denúncia contra Aécio. Na sessão, os ministros da 1ª Turma – Alexandre de Moraes (presidente), Marco Aurélio, Luiz Fux, Rosa Weber e Luís Roberto Barroso – devem decidir sobre o futuro da acusação contra o tucano.

Além de Aécio, a irmã dele, Andrea Neves, o primo Frederico Pacheco de Medeiros e o advogado Mendherson Souza Lima também foram denunciados pela prática do crime de corrupção passiva.

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