Eleições 2018: "No Brasil, tem mais casa sem gente do que gente sem casa", diz Guilherme Boulos Betina Humeres/Diario Catarinense

Foto: Betina Humeres / Diario Catarinense

Aos 20 anos, Guilherme Boulos deixou a casa dos pais para viver em uma ocupação, junto a famílias unidas pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em São Paulo. Diz que fez isso por solidariedade. Em março deste ano, ele se filiou ao Psol para disputar a Presidência do Brasil nas eleições 2018

Hoje aos 35, Boulos vive com sua esposa e as duas filhas na periferia da zona Sul da capital paulista e conversou durante 34 minutos com a reportagem da NSC Comunicação na semana passada. Falou sobre sua proximidade com Lula, sobre o movimento de busca pela moradia no país, sobre as vezes que acabou detido durante a atuação em movimentos sociais e de sua aspiração política enquanto pré-candidato à Presidência. 

Em uma semana, passou por seis Estados defendendo suas ideias. Garante que está pronto para a eleição que se aproxima. Confira a entrevista exclusiva:

Eleições 2018: leia entrevistas com outros pré-candidatos à Presidência

Sua história política quase que se entrelaça com a dos movimentos sociais pela moradia no país nos últimos anos, com que idade começou sua militância?

Comecei a atuar muito cedo no movimento estudantil, aos 15 anos. Depois fui para a universidade, me formei em Filosofia na Universidade de São Paulo. Na sequência, tive outras formações profissionais em Psicanálise e, mais recentemente , fiz um mestrado em Psiquiatria. Pouco antes de me formar, trabalhei como professor em escolas de ensino médio na periferia de São Paulo. Agora também trabalho como professor e escrevo. Entrei no MTST nas ocupações, na luta por moradia, com 19 anos. Fazem 16 anos que estou atuando no movimento, ao lado de quem precisa de casa. Nesse processo, conheci minha companheira, me casei , tenho duas filhas Sofia e Laura. Tenho tocado a minha vida fundamentalmente a partir da luta do movimento social e, no último período, por tudo que tem acontecido no Brasil, ficou impossível não se envolver no debate político mais geral. O país passou por retrocessos democráticos e de direitos sociais muito profundos, por um golpe parlamentar. A partir disso, surgiu o debate de uma aliança dos movimentos sociais com o PSOL, com o PCB e nossa candidatura foi viabilizada.

Aos 20 anos, deixou a casa de seus pais para morar em uma ocupação. O que o moveu para abrir mão do seu lar em busca da luta coletiva?

Existe uma coisa, que lamentavelmente tem se perdido muito no Brasil, que é a solidariedade. Há uma crise ética. Essa capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir as dores do outro. Nos acostumamos na vida urbana, avassaladora, onde está todo mundo sozinho no meio da multidão, há um isolamento, uma depressão. As pessoas se tornaram invisíveis. Principalmente, as pessoas mais pobres. Elas sofrem humilhações cotidianas que não têm voz e não têm vez. Muito embora a desigualdade social no Brasil seja brutal e se perceba em cada esquina, há quase que um condicionamento para tornar isso invisível. É o elevador de serviços, é a porta dos fundos, as pessoas não têm espaço. Na minha juventude, eu vivia como qualquer outro jovem da minha idade. Jogava bola, ia para o estádio de futebol, ia à escola, tinha minha família, minha vida. Mas me indignei com isso tudo, com essa desigualdade e fui desenvolvendo essa solidariedade pelas pessoas que sofrem. No caso, o problema da moradia. E essa pergunta é curiosa porque muitas vezes ela vem com um quê de desconfiança. É quase uma suspeita sobre a solidariedade. Nós não precisamos viver o problema da falta de moradia para lutar junto com quem precisa de uma casa. Assim como não precisamos passar fome para se solidarizar com quem tem fome. Está faltando solidariedade no Brasil e precisamos levar isso para a política.

O que o incêndio no prédio em são Paulo diz sobre a política habitacional do país e qual é a política habitacional ideal?

A tragédia que aconteceu aqui em São Paulo era de algum modo anunciada. Foi resultado, como toda ocupação, de um duplo abandono. Um abandono de um prédio e um abandono de gente. Aquele desabamento começou 20 anos atrás quando esse prédio ficou abandonado pelo antigo proprietário, sem qualquer fiscalização por parte da prefeitura. Depois a União executou aquele prédio por dívidas,  foi para a Prefeitura de São Paulo e, em nenhum momento, houve fiscalização de Defesa Civil, dos Bombeiros, que constatasse aquilo e que reformasse o prédio. Se houvesse uma política habitacional efetiva esse local já teria sido reformado e destinado para a moradia popular. É um prédio do poder público, abandonado, não faz sentido isso. Ainda mais quando temos um cenário drástico no Brasil com 6 ,3 milhões de famílias sem casa e ao mesmo tempo temos 7,9 milhões imóveis abandonados. Tem mais casa sem gente do que gente sem casa. Você poderia resolver parte importante do problema da moradia requalificando e reformando esses imóveis. Inclusive, tocando em um tema que é tabu que pobre poder morar nas regiões centrais também. O nosso modelo de cidade no Brasil, é aquele que joga os pobres cada vez mais nas periferias, em regiões mais distantes, com menos infraestrutura, com menos serviços públicos de saúde, educação, creche, lazer, cultura, e mais distante dos locais de oferta de emprego. As pessoas ficam uma, duas horas, no ônibus para chegar ao trabalho. É uma questão não só de pensar a casa, mas a cidade. Nós achamos que houve um descaso do poder público em relação àquela situação. E, é lamentável ver que muita gente se apressou em culpar as vítimas pela tragédia. Sem teto não tem arquiteto, engenheiro ou Defesa Civil para saber, quem deveria fiscalizar. Isso era função do poder público. Outros pegaram uma situação de possível oportunismo que tenha ocorrido lá – e que tudo indica ocorreu de fato – de gente que extorquia para desqualificar o conjunto do movimento social. O caso de um aproveitador no meio, que fazia práticas absurdas, generalizou para dizer que todo o movimento que luta pela moradia então é desse jeito. Se aproveitou de uma tragédia para culpar vítima e criminalizar movimentos sociais. Isso é inaceitável.

Enquanto a esquerda esteve no poder, com Lula e Dilma Rousseff, a política habitacional teve avanços efetivos?

Houve um investimento importante na área de moradia com o programa Minha Casa, Minha Vida. Foi o maior programa de habitação da história do país. Maior do que o BNH, que era o programa de durante a ditadura militar. Ele deu subsídio e pode atender uma faixa de renda mais baixa. Porém, tem limites. Ele teve o mérito de reservar uma quantidade importante do orçamento público para a moradia popular, mas fez isso com o protagonismo das construtoras e reproduzindo a lógica dos mais pobres nas periferias. Se você ver os conjuntos habitacionais do programa, em geral estão nas regiões mais distantes . Isso é um problema.

Você já foi preso durante atuação em movimentos sociais. Acredita que a polícia está despreparada para atuar com os cidadãos que vão às ruas ou que os ânimos estão mais acirrados em função do momento político que o país vive?

Estou há 16 anos no MTST e houve atuações muito brutais que eu pude presenciar da polícia em relação a ações de reintegrações de posse, de despejo. As famílias sendo retiradas das suas casas e sofrendo violência, de todo tipo, de toda sorte. Particularmente, teve um despejo que eu presenciei, em 2002 ou 2003, em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, em que a polícia entrou lá sem aviso prévio, foi destruindo as casas, os barracos das pessoas e uma senhora forte e grande. Entraram na casa dela e começaram a destruir tudo que ela tinha, o pouco que acumulou na vida. Ela se rebelou, tentou impedir. Ela estava transtornada, como qualquer pessoa numa situação como essa. Juntaram quatro ou cinco policiais, derrubaram ela na lama, enforcando ela. Veio o filho dela de 12 anos, gritaram, levaram para a viatura. Isso para dizer o que é o drama da luta por moradia no Brasil. Às vezes que eu acabei sendo detido em reintegrações de posse têm muito a ver com isso. Com estar junto dessas pessoas contra arbitrariedades não apenas da polícia, mas do sistema judicial. Pega o caso de um juiz que dá uma reintegração de posse como se estivesse escrevendo num papel de pão, sem ir lá, sem buscar saber. Sem buscar qualquer tipo de alternativa para aquelas famílias. Isso é muito sério e muito grave.  

Você esteve com o Lula nas horas que antecederam a prisão dele, em São Bernardo do Campo. Como era e é sua relação com ele?

Tenho respeito pelo Lula, pela trajetória dele. Ele veio de baixo e se tornou presidente da República. Saiu bem aprovado do seu governo, teve acertos e teve erros no seu governo. Mas erros sobretudo de não ter enfrentado a lógica desse sistema político brasileiro, acabado governando com os mesmos que sempre governaram o estado brasileiro, não ter pautado uma reforma política no início do seu mandato, não ter pautado temas como uma reforma tributária para enfrentar privilégios das oligarquias financeiras do Brasil. Acredito que o que foi feito com Lula nesse processo judicial é algo injusto. Foi condenado sem apresentação de nenhuma prova. Enquanto Michel Temer (MDB) tem uma coleção de provas e está no Palácio do Planalto. Enquanto o Aécio Neves (PSDB) tem uma coleção de provas e está no Senado federal fazendo lei. O Lula sem gravação, sem mala, sem provas, está preso em Curitiba. Não é uma questão de concordar com o Lula, de discordar do Lula. Sou pré-candidato à Presidência da República pelo PSOL. Não teria nenhum interesse próprio em defendê-lo. Não sou do PT. É uma questão de defesa da democracia. Quando setores do judiciário resolvem fazer política começa a ficar difícil falar em democracia. O papel do Judiciário é julgar de forma isenta, não é se comportar como chefe de partido. Acho que isso aconteceu e por isso que nós nos solidarizamos. Não só a mim, mas meu partido também foi contundente. Estava lá naqueles dias em São Bernardo do Campo para dizer que a condenação do Lula foi uma farsa judicial e que a sua prisão foi política e segue sendo. Por isso, defendemos a libertação do Lula. Ali tinha uma coisa muito emblemática e o Lula sabe disso. Muita gente que esteve com ele e com o PT na hora da distribuição do PT não estava lá (em São Bernardo do Campo). Nós somos aqueles que não estávamos na hora da distribuição do poder. Mas estávamos na hora da solidariedade. É uma questão de estar do lado sério da história. De ter uma responsabilidade, mesmo com diferenças políticas, isso não pode nos fazer ser coniventes com injustiça.

É possível uma junção do seu projeto com o da Manuela D´Ávila (PCdoB), que é a outra pré-candidata ungida pelo Lula?

Não tem essa coisa de unção. Ninguém unge ninguém. Naquele momento, o Lula demonstrou um reconhecimento em relação a nossa caminhada, ao debate que nós temos feito e a solidariedade que tivemos com ele naquele momento. A Manuela tem feito o debate da campanha dela e temos concordâncias em pontos, por exemplo no enfrentamento ao governo Temer, defesa da democracia no Brasil, o próprio tema da prisão do Lula. E temos diferenças em outros pontos. É saudável que seja assim. A esquerda não pode ser um espaço de pensamento único. É saudável que também se coloquem debates, diferenças, polêmicas. É assim que a gente consegue ter uma visão mais ampla da realidade. Nesse momento, não está colocada uma unidade eleitoral. O que está colocada é uma unidade, não apenas com a Manuela, mas com o conjunto das forças progressistas para defender a democracia do Brasil. Uma frente de defesa da democracia, que temos trabalhado para fortalecer ainda mais. Do ponto de vista das pré-candidaturas, existem diferenças que se colocam.

PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 20-04-2018. O candidato à presidência Guilherme Boulos (PSOL) concede entrevista coletiva na Assembleia Legislativa do RS. (Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS)
Foto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

Sua candidatura é para valer mesmo? Como andam as negociações do ponto de vista das coligações?

Nossa candidatura é para valer. Estamos correndo trecho pelo país. Em uma semana, eu estive em seis Estados em atividades da nossa pré-campanha, debatendo em universidades, com muita juventude. Eu sinto muita esperança do ponto de vista da transformação, Temos debatido em comunidades quilombolas no Pará, com movimentos sociais, com povos das periferias, com grupos culturais, enfim temos corrido trechos para apresentar a nossa proposta. Na medida em que nós não temos financiamento de banco ou de empreiteira, porque depois fica com o rabo preso e quem paga a campanha eleitoral define o tom da política de quem ganha, estamos fazendo isso de maneira militante. E nossa pré-campanha tem um espaço enorme para crescer ainda mais. O sentido da nossa candidatura é apresentar um projeto de combate a privilégios, de aprofundamento democrático no Brasil. É importante que se diga: temos uma parte da nossa população em um cenário de desilusão, de desesperança. As pessoas olham a política e dizem que não tem jeito. Temos que compreender porque as pessoas estão pensando assim. Em um certo sentido elas têm razão. O sistema político da forma que está não representa as maiorias do Brasil. Ao contrário, representa os grandes interesses econômicos e financeiros que sequestraram o Estado brasileiro. O que está em jogo para nós é, sobretudo, apresentar um novo jeito de fazer política. Que aproxime o poder das pessoas e que quebrem o abismo que existe entre Brasília e o Brasil de verdade. Isso é pensar uma reinvenção da democracia brasileira e compreender que o papel do cidadão não é apenas a cada quatro anos.

Como aproximar o cidadão dos debates importantes, como as reformas, por exemplo? Plebiscitos?

É, é uma forma fundamental. Se ganharmos essas eleições, no dia 1 de janeiro de 2019 apresentaremos para a sociedade brasileira um plebiscito para revogar medidas do governo Michel Temer.

Quais medidas?

Pelo menos, reforma trabalhista, emenda constitucional 95 que congelou gastos sociais pelos próximos 20 anos no país, novo marco regulatório do pré-sal que entrega para as empresas estrangeiras, a reforma do ensino médio que foi feita sem qualquer discussão com a comunidade escolar. Ao menos, essas. Nem o Congresso nem o presidente devem poder tudo. Voto não é cheque em branco. Isso é democracia frágil, de baixíssima intensidade. Não tem que ter medo de trazer as pessoas para a decisão.

O fatiamento da esquerda numa candidatura sua, outra da Manuela, uma outra da Marina (Silva, Rede), eventual do PT, cria fragilização?

Essas eleições são imprevisíveis, talvez as mais imprevisíveis desde 1989. E tem muitos candidatos, não apenas as da esquerda. A direita tem muito mais candidatos e está mais dividida do que a esquerda. Do lado da direita, ou da centro-direita, todos eles de alguma forma são Temer. Alguns são Temer disfarçado, outros são Temer assumido. Mas todos reivindicam as reformas e as políticas do governo Michel Temer, particularmente do ponto de vista da economia. Um deles inclusive é o próprio ministro que fez essa atrocidade toda que é o Henrique Meirelles. O governo Temer é o mais rejeitado da história republicana do Brasil. Eu não acredito que o povo brasileiro vai colocar dois têmeres no segundo turno. Seguramente, haverá pelo menos uma vaga para o campo da esquerda. Vamos batalhar para que sejamos nós. A eleição no Brasil é de dois turnos.

Como enxerga o desempenho da esquerda no Sul do Brasil?

O Elson (Pereira) nosso companheiro de partido, na última eleição municipal de Florianópolis e foi uma grata surpresa. Mostra que existe sim espaço no Sul do país para um pensamento crítico, progressista, de esquerda. Essa ideia de que o Sul do Brasil, de SP para baixo, todo mundo é direita, é Bolsonaro, é caricatural. Em SC, acreditamos que o nossos partido vai ter um desempenho importante. De um lado o lançamento do Leonel Camasão como pré-candidato ao governo do Estado e, de outro o Afrânio Boppré para a Câmara dos deputados e o Elson como candidato a deputado estadual. Estamos vendo um processo de crescimento do PSOL. Há uma série de outras pré-candidaturas que devem crescer para engrossar as nossas bancadas. Há sim espaço para o crescimento de esquerda em SC.

Por que o senhor escolheu o Psol?

A aproximação não é de hoje e se deu através das lutas do movimento social. Encontramos o PSOL nas ruas desse país, lutando juntos contra o golpe parlamentar, contra as medidas do Temer. Lutando por democracia e direitos sociais do Brasil. O MTST, movimento de onde eu venho, a Frente Povo sem Medo, que construímos, foi se aproximando do PSOL. É um partido coerente. Aquilo que diz, pratica. Temos uma bancada de seis deputados federais que valem por 60 no Congresso Nacional. Não tem rabo preso, enfrenta até o final. Foi a única que não deu voto a Temer em dois anos. Mantém a coerência, não negocia princípios. O Psol se dispôs a se abrir para algo novo. O que construímos e estamos construindo é uma aliança do PSOL coligado com o PCB e com um conjunto d movimentos sociais. Com setores da sociedade brasileira. E uma coisa nova. A minha companheira de chapa a Sonia Guajajara é uma grande liderança indígena. A primeira a estar numa chapa presidencial em 518 anos. É um caldo da sociedade civil que está se expressando na nossa campanha. 

Leia outras entrevistas com pré-candidatos:

Marina Silva:  "A eleição de 2014 foi uma fraude"

Meirelles: "Serei o candidato da criação de empregos e do controle da inflação"

Bolsonaro: "Não sou muito bom, os outros é que são horríveis"

Ciro Gomes: "O poder político está colapsado"

Geraldo Alckmin: "Não se constrói uma nação tão dividida"

Rodrigo Maia: "Precisamos fugir da polarização"

Álvaro Dias: "Temos desonestos dos dois lados"

Manuela D'Ávila: "As saídas para a crise econômica são vinculadas à saída da crise política"

João Amoêdo: "O Estado tem que deixar de ser gestor de empresas

 Veja também
 
 Comente essa história