Eleições 2018: "Temos desonestos dos dois lados", diz Álvaro Dias Marco Favero/Diário Catarinense

Alvaro Dias é formado em História pela Universidade Estadual de Londrina e é natural de Quatá, em São Paulo.

Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

Crítico da política do toma lá, dá cá e do loteamento de cargos a partidos, Álvaro Dias tem a dura missão de provar nas Eleições 2018 que, mesmo com meio século de vida política, é a renovação que o país precisa – algo complicado para um senhor prestes a completar 74 anos. 

No nanico e recém-criado Podemos (antigo PTN), o senador aposta na experiência adquirida por ter sido vereador, deputado estadual, deputado federal e governador como uma vantagem sobre os adversários nas eleições. Segundo ele, os concorrentes não têm bagagem para assumir a responsabilidade da Presidência da República

Com a voz linear, não aumenta a entonação nem quando bate na mesa para questionar ações do atual governo e de anteriores, e crê que seu trunfo perante adversários é o fato de ter abdicado de salários e auxílios, além do posicionamento contrário ao foro privilegiado. 

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Há 50 anos, o senhor era eleito pela primeira vez como vereador em Londrina. De lá para cá, foi deputado estadual, deputado federal, senador, governador. Quando houve o estalo para tornar-se pré-candidato à Presidência?
Fui convocado em julho do ano passado, quando o Podemos foi lançado aqui em Brasília. Iniciava-se a instalação de um novo movimento, o Podemos, que tinha que oferecer um projeto alternativo de nação e com um intérprete para esse projeto. E o partido me convocou. Eu tenho até receio de falar em partido, que é algo que tenho combatido tanto no Brasil, já que nós não temos partidos e sim siglas para registro de candidaturas, tanto que quando eu falo do Podemos, falo de um movimento que um dia pode se tornar um partido se for feita uma reforma política competente. Mas, enfim, no lançamento do Podemos houve uma convocação e eu acabei assumindo o compromisso de ser candidato.

Então os partidos não têm ideologia, senador?
As nossas siglas são alimentadas pelo Fundo Partidário e agora também pelo Fundo Eleitoral, e por isso instalou-se no Brasil uma verdadeira fábrica de siglas. Nós temos 35 registradas e mais 60 na fila esperando a aprovação do Tribunal Superior Eleitoral. Isso demonstra uma pulverização inusitada, que acabou por promover uma degradação geral e uma desmoralização. Tanto é que procuradores da Operação Lava-Jato identificam algumas dessas siglas como organizações criminosas ou lavanderias de dinheiro sujo. Então é nesse ambiente que nós estamos convivendo. Mudei várias vezes de sigla exatamente à procura de um partido que não encontrei até hoje. Mudei para não mudar de lado, para não violentar minhas próprias convicções, porque não me sentia bem naquele ambiente partidário, trombando a todo momento com a prática adotada e sem querer conviver com aquela realidade.

Especialistas apontam o senhor como o candidato de centro. Como agradar a todos?
Se investigarmos, vamos constatar que a população maior está realmente no centro. No espaço de centro no espectro ideológico. É uma discussão esquizofrênica, maluca mesmo, nervosa, e por isso às vezes provoca radicalismo. Uns extremados à esquerda, outros extremados à direita, mas na verdade o que o cidadão deseja é a solução para seus problemas. E essa solução, normalmente, está no centro, porque você vai buscar algumas virtudes, ideias, valores, à direita, e outras à esquerda. A estratégia é somar. Somar o que há de bom de um lado, de outro, e tentar caminhar adiante. O que importa é ir para frente, não para os lados.

Quais são essas coisas boas de ambos os lados?
À direita: a pregação da relação custo-benefício dos investimentos, o cuidado com a aplicação do dinheiro público, a redução do tamanho do Estado. A frase “menos Estado e mais sociedade” é uma que posso incorporar. Outra diz que a “melhor forma de combater a pobreza é valorizar quem produz”, “o melhor programa social é o emprego”. Enfim, são teses à direita e eu incorporo perfeitamente. Um Estado menor, mais enxuto, mais econômico e mais eficiente, qualificado tecnicamente para oferecer serviços públicos de qualidade à população, gastando menos com despesas correntes para poder ter recurso para investir mais em setores como saúde e educação.

A força do empreendedorismo é o que vai nos elevar em matéria de produtividade e de investimentos também. A economia liberal, liberdade para empreender e consumir, são teses à direita. Já à esquerda, a redução das desigualdades sociais, melhor distribuição de renda, justiça social. Isso tudo vale. Uma reforma tributária que adote um sistema progressivo, para tributar mais na renda do que no consumo. São teses à esquerda e que eu posso assimilar tranquilamente. Talvez por isso me considerem de centro.

O senhor disse recentemente que a “recuperação do Brasil passa pela refundação da república”. Uma metáfora crítica ou a abertura para uma discussão mais ampla quanto ao sistema parlamentarista?
Isso é a definição da minha proposta. A refundação da República é a síntese daquilo que eu estou propondo, que é a substituição do sistema corrupto e incompetente de governança, que é fábrica de escândalos e matriz de governos incompetentes. Houve uma assimilação desse sistema inclusive pela própria imprensa que não se assusta mais quando há um loteamento de cargos. Itaipu, por exemplo, foi loteada entre seis partidos políticos. Então onde está a eficiência? Onde está a qualificação técnica? A refundação da República é a substituição desse sistema, e isso passa por grandes reformas: do Estado, política, tributária, da previdência, do sistema federativo. Um conjunto de reformas importantes, fundamentais, indispensáveis para recolocar o país nos trilhos do desenvolvimento, porque com esse sistema nós estamos fadados ao fracasso permanente. O Brasil não vai alcançar os índices de desenvolvimento econômico compatíveis com suas potencialidades enquanto aceitar o sistema.

Esse seu discurso tem como objetivo surfar com os eleitores indecisos entre geraldo Alckmin e jair Bolsonaro, principalmente em SC, um estado em que 64,6% dos eleitores votaram no Aécio neves nas últimas eleições?
Eu tenho grande esperança de fazer além disso em Santa Catarina, porque somos todos Sul, somos irmãos. Sempre reclamamos que somos colocados em uma condição secundária, oferecemos muito e recebemos pouco. Não tenho dúvida de que a inteligência prevalecerá. Seria uma legítima defesa do interesse público regional, porque nós temos uma oportunidade. Dessa vez há um representante da região. Seria fazer um gol contra você escolher alguém de longe, que não tem identidade nenhuma com a região e até escolher alguém que nunca foi cogitado para ser prefeito da sua cidade, governador do seu estado. 

Então essa é uma discussão que tem que ser preponderante na questão política regional. Temos que cantar província realmente, isso é da nossa natureza. Não há razão para um pretendente a ocupar o cargo de presidente discriminar qualquer região, mas há uma razão preponderante que é de valorizar a sua própria. Se eu não valorizo a minha, não terei certamente competência para valorizar as demais. Então acho que é uma questão de inteligência. No Sul temos que nos unir em torno de um projeto de nação que tenha identificação conosco.

Santa Catarina é estratégica, então?
Sem dúvida. Eu aposto muito em Santa Catarina. Acredito que a votação expressiva no Paraná terá continuidade por lá. Nós estamos juntos, né? Estamos ligados. Santa Catarina é como se fosse meu segundo Estado, onde eu moro no verão, inclusive. Tenho impressão que seremos bem acolhidos e isso será uma honra. Quando eu era governador do Paraná e ia ao BNDES, ouvia dos técnicos a seguinte expressão: “a indústria de Santa Catarina é a mais competente do Brasil. Os empresários catarinenses são muito competentes”. Eu ouvia isso lá no BNDES e anotei, registrei isso. Sei que é um Estado competente e tenho convicção de que a nossa proposta vai ser muito bem acolhida, porque quem trabalha, produz com eficiência, com competência, deve gostar da nossa proposta.

O senhor falou do PT no início da última resposta. A prisão do ex-presidente Lula fortalece ou enfraquece os partidos de centro e direita?
A operação Lava-Jato mudou o cenário eleitoral do país. O que fortalece é o passado limpo. Essa análise será preponderante para o eleitor. Aliás, as pesquisas revelam justamente isso, que o eleitor exige passado limpo e experiência administrativa. Você tem que compatibilizar ambos para ter possibilidade de apoio do eleitor brasileiro. O que separa uns dos outros no Brasil hoje não é nem esquerda ou direita, é honestidade e desonestidade. Isso é fundamental. O eleitor tem que estar do lado da honestidade e condenar a desonestidade, seja ela da direita, da esquerda, de onde venha. Temos desonestos dos dois lados, eles estão em todas as partes. Para o eleitor é fundamental conseguir separar o joio do trigo.

Lava-Jato ganhou espaço, derrubou o senador Delcídio do Amaral, além de outros nomes na Câmara dos Deputados. O brasileiro quer e não quer ver ao mesmo tempo nomes graúdos presos, porque sabe que isso mancha a política. Como o senhor vê esse cenário? Ver um ex-presidente da República preso é triste, mas existe o lado positivo, já que é um avanço, um salto civilizatório. Até pouco tempo a Justiça no Brasil só alcançava os pobres e isso era a norma, o conceito, algo arraigado na alma da sociedade brasileira. Uma Justiça para os pobres, porque os ricos nunca seriam alcançados. E chegou o momento em que a operação Lava-Jato veio para mudar, e a partir de Curitiba principalmente os barões da corrupção começaram a ser presos, junto com grandes empreiteiros, empresários, marqueteiros, banqueiros, políticos, ex-governadores, ex-ministros. Veja que estou usando o “ex”, já que os que possuem mandato ainda estão protegidos pelo foro privilegiado, então essa é uma etapa seguinte. Mas os “ex” estão presos. Até um ex-presidente da República. Então é um salto civilizatório, um avanço que tem que ser registrado. Outras etapas virão, mas sem dúvidas a prisão de Lula configura um grande salto no avanço da direção dessa nova Justiça.

 BRASÍLIA, DF, BRASIL - 11/04/2018Senador Álvaro Dias, candidato à presidência pelo Podemos
Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

Como o senhor vai abordar a intervenção no rio de janeiro na campanha?
A intervenção no Rio é a confissão de impotência, consequência da corrupção e da incompetência administrativa. Esse caos que há em matéria de segurança é o caos que há em matéria de saúde pública, razão do desemprego crescente no nosso país. E a questão de segurança não é só no Rio de Janeiro, já que lá talvez não seja o Estado mais crítico. 

Das 50 cidades mais violentas do mundo, 11 estão no Nordeste. Estive em Fortaleza recentemente e o crime lá cresceu 90% de um ano para o outro, 54% no Estado. Em Aracaju a manchete era de que a cidade era a 18ª mais violenta do mundo. Portanto não há violência só no Rio. A intervenção é só lá, mas e nos outros lugares? É uma medida precária, não é uma solução. Pode ser atenuante, um efeito psicológico. 

A intervenção é um movimento político, então?
Foi um movimento de marketing. Uma encenação para salvaguardar a imagem do presidente da República, dando sustentação a ele para permanecer lá até o final do mandato. Essa foi uma das motivações, mas tiveram outras duas. Uma delas é o foro privilegiado. Se não há essa intervenção esse projeto já teria sido votado e teria sido aprovado, porque ninguém tem coragem de votar contra, principalmente em ano eleitoral. E a outra foi a reforma da Previdência. O governo ia perder na votação e a intervenção foi o processo salvador. Foi mais teatro. Não creio que o próprio presidente entendeu isso como uma solução. É confissão de impotência. 

A pesquisa recente da CNT/MDA indica o senhor variando nos 3%. qual o potencial que Alvaro Dias tem nessa corrida?
As pesquisas da pré-campanha vão mudar na fase de campanha. Muitos candidatos que hoje estão nas pesquisas não vão continuar. Além disso, é preciso levar em conta a rejeição dos candidatos.

A desistência de Joaquim Barbosa abre uma brecha para os centristas, como o senhor. pode engrandecer nomes como Bolsonaro?
Joaquim Barbosa seria um grande candidato e seu legado ético com certeza é muito bem-vindo para qualquer candidatura. Ainda não podemos dizer para que lado irão os votos que seriam dados a ele, mas gostaria muito de herdá-los. 

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