Donald Trump gostaria de ser o promotor de outro aperto de mãos entre israelenses e palestinos na Casa Branca. Mas, 25 anos depois dos Acordos de Oslo, os Estados Unidos estão em sua pior posição para desempenhar o papel de mediador desse conflito.

Para Trump, reunir os líderes de ambos os lados para assinar um acordo de paz como fez Bill Clinton em 1993, em Washington, com Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, ou acolher em Camp David os líderes de Israel e Egito, como fez Jimmy Carter em 1979, parece um sonho distante.

Durante o governo desse presidente republicano, os Estados Unidos se afastaram ainda mais de exercer seu tradicional papel de mediador no processo de paz no Oriente Médio.

Novato em política externa, ao assumir o governo, Trump prometeu que conseguiria um acordo definitivo entre Israel e os palestinos.

Para isso, encarregou seu genro, o conselheiro Jared Kushner, de liderar um pequeno grupo para essa tarefa. Essa comissão se mostrou inexperiente e muito próxima de Israel.

"Acredito que seja algo que, francamente, talvez não seja tão difícil como as pessoas pensam há anos", disse Trump em maio de 2017.

Mais de um ano depois, suas palavras contradizem os fatos.

"Durante toda minha vida, ouvi que é o acordo mais difícil de conseguir e estou começando a pensar que talvez seja", admitiu Trump na semana passada, embora tenha manifestado sua esperança em conseguir o feito.

- 'Paz à força' -

Também é certo que, desde que Trump assumiu, o contexto mudou radicalmente.

No início, os palestinos deram a Trump o benefício da dúvida. No final do ano passado, porém, congelaram todos os contatos com Washington depois de Trump ter reconhecido Jerusalém como capital de Israel.

Esta posição representou uma ruptura com as dezenas de anos de consenso internacional de que o status dessa cidade santa deveria ser resolvido por meio de negociação.

Desde então, o governo americano multiplicou as medidas de grande envergadura para punir os líderes palestinos e forçá-los a aceitar negociar com Israel.

A ajuda bilateral foi quase extinta e, na segunda-feira, Washington ordenou o fechamento da missão da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) na capital americana, 25 anos depois de Arafat ter sido recebido com honras na Casa Branca.

Trump diz que quer obter a "paz à força". Mas, seria essa doutrina possível?.

As autoridades americanas "acreditam que os palestinos podem ser convencidos de que perderam e que têm que aceitar qualquer tipo de acerto, incluindo uma forma limitada de autonomia com alguma ajuda econômica", explicou Michele Dunne, pesquisadora do Carnegie Endowment for International Peace.

Segundo Dunne, os americanos parecem estar tentando tirar os temas mais espinhosos da mesa: o status de Jerusalém, o direito ao retorno dos palestinos e até o acesso a um Estado palestino.

"Mas esses temas continuam sendo muito importantes para os palestinos e para outros árabes e muçulmanos", indicou Dunne, acrescentando que "parece pouco provável que os palestinos aceitem".

- Um misterioso plano de paz -

A Autoridade Palestina negou a Trump o papel de mediador no Oriente Médio, um espaço que os Estados Unidos ostentavam há décadas.

Para Aaron David Miller, um antigo negociador tanto para governos democratas quanto para republicanos no Oriente Médio, Washington nunca foi realmente um "corredor imparcial" no tema.

"Nossa relação com Israel sempre impediu isso", explicou à AFP.

"Eu nunca vi um governo que apoie Israel de uma forma tão flagrante e que ao mesmo tempo seja hostil em relação ao lado palestino", resumiu.

O assunto chegou a um ponto tal que este campo minado impediu que a equipe de Kushner encontre o momento para apresentar seu misterioso plano de paz. A apresentação já foi adiada há meses.

A Casa Branca insiste, porém, em que o plano ainda não foi abandonado.

"Este é um projeto do governo extraordinariamente ambicioso", disse na segunda-feira o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, John Bolton.

Para Miller, a menos que haja surpresas com um mapa de rota que inclua um Estado palestino com Jerusalém Oriental como capital, "o resultado mais provável será um 'não' dos palestinos".

Este tipo de resposta pode até ser o objetivo buscado pela Casa Branca, completou Dunne, acrescentando que poderia ser uma tentativa para "usar a inevitável rejeição dos palestinos como uma justificativa para novas mudanças na política americana em relação à presença israelense na Cisjordânia".

* AFP

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