Mesmo com nove nomes à disposição, três em cada 10 eleitores catarinenses sentem que estão sem alguém para os representar no comando do Estado pelos próximos quatro anos e devem votar em branco ou anular o voto quando forem às urnas em outubro deste ano. Os indecisos engrossam o coro dos sem candidato e representam mais da metade (57%) do eleitorado catarinense avaliado, o maior índice nos últimos 12 anos e o mais expressivo do país, conforme dados da primeira pesquisa Ibope de intenção de voto desta eleição.

Cientistas políticos se dividem quando a questão é o poder de reversão desse cenário, mesmo que a curto prazo, tendo em vista o início do horário eleitoral gratuito nas rádios e na televisão desde sexta-feira. Eles apontam justamente o atraso no início da campanha na televisão, um foco maior na disputa presidencial e ainda o sentimento de indiferença sobre o poder do voto como possíveis causas do descrédito do eleitor na classe política.

— Não seria uma falta de interesse pelo voto em si, mas mais uma dificuldade em ter contato com a disputa eleitoral estadual. É possível que daqui a uma, duas semanas isso já esteja alterado. Esse índice para Santa Catarina é razoável. É maior que o visto no Rio e em São Paulo, mas nesses Estados os candidatos são figuras que aparecem na mídia nacional o tempo inteiro, diferentemente daqui — pondera Tiago Borges, doutor pela Universidade de São Paulo e professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC.

Já o doutor em Ciência Política e também professor da UFSC, Jean Gabriel Castro da Costa, analisa que, especialmente em Santa Catarina, o aumento da chamada alienação eleitoral (soma de abstenções, votos brancos e nulos) surge logo após o fim da chamada tríplice aliança, costurada por Luiz Henrique da Silveira (PMDB) na reeleição de 2006 e que gerou frutos até hoje.

Falta tempo para formar uma opinião, avalia especialista

Para Costa, o fim dessa aliança aumentou a incerteza sobre candidatos e candidaturas ao governo do Estado, que foram definidas na última hora, não dando tempo para que os eleitores formassem opinião.

— O aumento da alienação eleitoral se explica quando os cidadãos se abstêm porque sentem que suas vidas caminham mais ou menos bem e não percebem a influência negativa ou positiva do governo nessa situação. Por indiferença, deixam de votar. Um fator importante para determinar a taxa de alienação eleitoral é a expectativa que o eleitor tem de que seu voto fará alguma diferença no resultado da eleição e a crença de que na eleição em questão existe, efetivamente, algo relevante em jogo — exemplifica.

O professor ainda pondera que é difícil alcançar uma taxa de comparecimento eleitoral de 100%, com cidadãos escolhendo de fato algum candidato em vez de anular ou votar em branco. Para o especialista, o avanço desses índices passa por melhorias na educação, estimulando o engajamento cívico e o conhecimento sobre política, e depende da oferta de candidaturas melhores, que levem em conta preferências, valores e demandas dos eleitores.

Descrença tende a aumentar

Doutor em Ciência Política pela Universidade da Flórida e professor emérito da Universidade de Brasília, David Verge Fleischer lembra que o ato de se abster do processo eleitoral também  foi nas eleições para presidente da França em 2017. O pleito, vencido por Emmanuel Macron, teve a menor adesão dos últimos 60 anos. Fleischer avalia que no Brasil a descrença na política e nas eleições tende a crescer sem mobilização dos candidatos:

— Esta é a primeira vez que a coisa é tão generalizada, e o eleitorado só reflete essa piora. O eleitor médio, que não tem muito discernimento, segue orientações de amigos, vizinhos, colegas de trabalho e até da religião. São raros os que realmente vão pesquisar quem tem ficha limpa e propostas interessantes. Uma melhora nesse cenário, que varia de Estado para Estado, vai depender de como os candidatos vão encarar isso e como vão tentar reduzir esses índices.

Cenário nacional está um pouco mais definido

Doutor e professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, Jean Gabriel Castro da Costa, explica que historicamente eleições presidenciais e até de prefeitos tendem a atrair mais atenção do eleitorado do que as disputas estaduais. Esse comportamento é evidenciado na primeira pesquisa Ibope de intenção de voto em Santa Catarina.

Levando em consideração a disputa com e sem a candidatura do ex-presidente Lula, o índice de catarinenses que pretendem anular ou votar em branco varia de 15% a 18%. Já o de indecisos, que fica entre 8% e 12%, é menor que o de 2014, quando 16% dos eleitores ainda não tinham candidato definido na data da primeira pesquisa, em julho.

— A eleição presidencial é sobre o cargo de maior importância, que recebe mais atenção da grande mídia, provocando também mais debates sobre temas nacionais e, eventualmente, polêmicos. E polêmica atrai mais atenção. Já as eleições para o governo estadual são as mais abstratas aos olhos de muitos eleitores, que têm dificuldades até mesmo para identificar quais são exatamente as atribuições de um governador — pondera o especialista.

O professor da UFSC Tiago Borges reforça que esses são os percentuais apurados antes do início do horário eleitoral. Além disso, analisa o especialista, outro ponto que pode justificar esses casos, nos quais o eleitor ainda não se sentiu representado a ponto de escolher em quem votar, é o fato de a disputa presidencial viver um momento de indefinição:

— Estamos pensando muito na eleição nacional. As candidaturas demoraram para ficar definidas, foram estabelecidas nos últimos dias e ainda tem a candidatura do Lula. Temos uma indefinição nacional tão grande que pode estar contaminando também a decisão local do eleitor. Nacionalmente, a disputa eleitoral ainda está incerta e isso causa um efeito cascata.

Foto: Arte / Diário Catarinense

Ficha técnica das pesquisas

2018: feita de 14 a 16 de agosto, com 812 eleitores, margem máxima de erro de três pontos percentuais e nível de confiança de 95%. Solicitante: NSC Comunicação. Registros no TRE-SC (SC-09381/2018) e TSE (BR-09360/2018).

2014: feita entre 21 a 23 de setembro de 2014, com 1.008 eleitores; margem de erro de três pontos percentuais, nível de confiança de 95%. Solicitante: Grupo RBS. Registros no TRE (SC00027/2014) e TSE (BR00765/2014).

2010: de 3 a 5 de agosto de 2010, com  812 eleitores e margem de erro de três pontos percentuais. Solicitante: Grupo RBS. Registros no TSE (21923/2010) e no TRE (4497/2010).

2006: de 10 e 12 de julho, com 1.008 eleitores e margem de erro de três pontos percentuais. Solicitante: RBS TV Florianópolis SA. Registro no TRE (11838/2006).

Entenda

Os votos brancos ou nulos não são considerados votos válidos e, por isso, também não têm o poder de anular uma eleição. Na prática as duas modalidades têm a mesma função, o que difere uma da outra é a forma de invalidar.

Voto em branco: é quando o eleitor não quer votar em nenhum candidato e, ao mesmo tempo, não quer anular seu voto. Para votar em branco é necessário apertar a tecla específica que existe nas urnas eletrônicas.

Voto nulo: o voto nulo ocorre quando o eleitor insere um número que não pertence a nenhum candidato ou partido político, podendo ser um erro intencional ou não.

Fonte: Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina (TRE-SC)

Estratégias para convencer o eleitor

A reportagem consultou os coordenadores de campanha dos candidatos dos seis partidos com representação na Câmara dos Deputados sobre os planos para obter o voto dos indecisos nestas eleições:

CARLOS MOISÉS (PSL)

Por Laercio Menegaz Júnior, um dos coordenadores da campanha

"O Congresso Nacional aprovou um fundo eleitoral de R$ 1,7 bilhão para custear campanhas e ainda prestigia com tempo de TV os partidos maiores. Temos um projeto nacional e o nosso candidato a presidente Bolsonaro não usará seu fundo eleitoral. Em SC, o PSL também seguirá  à risca. A corrupção precisa ser combatida e votos nulos não geram mudança. Nossa estratégia é levar a ‘caravana do Bolsonaro’ com candidatos a senador e a governador em 20 municípios em todas as regiões do Estado. E através de redes sociais mostraremos que, além de defender as bandeiras de família, segurança e todas as outras que Bolsonaro defende, entrevistas e debates mostrarão a qualidade de nossos candidatos. A chance de mudar o país está nas nossas mãos".

DÉCIO LIMA (PT)

Por Cedenir Alberto Simon, coordenador da campanha

"O diagnóstico que a gente faz é de que foi feito um longo processo para criminalizar a política no Brasil. E esse processo é que tem gerado o crescente número de eleitores que não querem votar, o não voto, como é chamado no meio comum. Então, de fato, isso vem crescendo nos últimos anos. Certamente não será em uma eleição somente, ou com uma ação eleitoral, que vai ser revertido esse descrédito da população com a política. É um processo que cabe a todo mundo, aos setores atuantes na sociedade. De nossa parte, o que apresentamos ao eleitor é a possibilidade de ter um governo diferente do que teve até hoje em nosso Estado e esperamos que isso sensibilize quem vai votar. Não existe mágica. É preciso repensar a forma que está sendo tratada a política".

GELSON MERISIO (PSD)

Por Rodrigo Moratelli, coordenador da campanha

"Essa primeira pesquisa não retrata a realidade do voto em SC. Temos candidatos novos, conhecidos em suas regiões: o Merisio é muito conhecido no Oeste, o Mariani na região Norte e o que apareceu nas pesquisas inicialmente, já foi candidato em eleições passadas, tem um nome mais fixado na cabeça do eleitor. Ainda não temos a campanha eleitoral nos veículos de comunicação. Mesmo com todo o corpo a corpo sendo feito, você ainda não chega no seio do cidadão. Toda a nossa estratégia de marketing e comunicação visa ter uma percepção do eleitor para o momento das campanhas veiculadas em televisão e rádio. A gente espera que a pesquisa, a partir do dia 10 de setembro, após o feriado, comece a dar o norte que vai balizar o que está sendo feito".

JESSÉ PEREIRA (PATRIOTA)

Por Ailson Barroso Oliveira, presidente estadual do Patriota

"O Patriota já tem uma estratégia e o principal objetivo é oferecer a opção de renovação. Ou seja, a sociedade, os eleitores não acreditam mais (na política) por que os candidatos são sempre os mesmos, políticos de carreira. Mas os candidatos que nós estamos oferecendo aqui para a população catarinense é sangue novo na política. Esta estratégia que adotamos a gente acredita que vai reverter os votos brancos e nulos. A estratégia do Patriota é oferecer candidatos novos. Nós oferecemos o Jessé Pereira como uma esperança, uma pessoa que realmente vem oferecer renovação e mudança".

LEONEL CAMASÃO (PSOL)

Por Miriam Matos, presidente estadual do PSOL

A presidente estadual do partido, Miriam Matos, se manifestou por meio de uma nota encaminhada para a reportagem pela assessoria de imprensa do candidato Leonel Camasão. No texto, ela diz que a "estratégia é apontar para as pessoas que a saída é na politica, que é preciso conhecer melhor seus candidatos e o PSOL está construindo um caminho para gente". Ressalta ainda que o partido está ampliando a "campanha em nível estadual, buscando apresentar nossas candidaturas e suas propostas".

MAURO MARIANI (MDB)

Por Tufí Michereff, coordenador da campanha

"É o retrato do país. Devido a tudo o que acontece em nível nacional, as pessoas estão receosas com relação ao processo eleitoral e num momento em que temos candidaturas que passam pela renovação da política catarinense. Quando a gente apresenta um nome novo, também é natural esse processo. Nossos candidatos são lideranças regionais que precisam ser estadualizadas e têm todo um momento de entrar. Agora, as pessoas vão passar a conhecer os novos nomes colocados à disposição do eleitor. Nosso trabalho é, justamente, a partir dos programas eleitorais, das mobilizações que estamos fazendo nas regiões, caminhadas, contato com lideranças, estadualizar e torná-los conhecidos e, principalmente, mostrar o potencial das nossas propostas".

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