Mais da metade das afirmações feitas pelos candidatos ao governo de Santa Catarina e verificadas pelo Prova Real durante os dois turnos destas eleições não estavam exatas. O Prova Real é a iniciativa de fact-checking (checagem de fatos e discursos) da NSC Comunicação e classifica o grau de veracidade das declarações com base em cinco etiquetas: "Exato", "Quase isso", "Não é bem assim", "É chute" e "Não Fecha".

Desde o início de agosto, quando começou oficialmente a campanha eleitoral, o Prova Real verificou 130 declarações dos nove concorrentes ao governo do Estado. Dessas, 69 foram classificadas como "É chute", "Não é bem assim", "Quase isso" ou "Não Fecha". Receberam a etiqueta de "Exata" o total de 61 afirmações. 

O trabalho do Prova Real não é único no país. Em oito Estados brasileiros, iniciativas de fact-checking estão depurando o discurso de candidatos. Em SC, as declarações foram minuciosamente analisadas e confrontadas com dados públicos pelo Prova Real, para entregar ao eleitor a conclusão se um candidato falou a verdade, omitiu informações e contextos ou errou.

Foi a primeira vez que o eleitor catarinense contou, ao longo do processo de escolha do voto, com uma ferramenta para compilar o que os candidatos dizem e classificar quanto ao nível de veracidade de forma isenta. Desde o início, o objetivo foi estimular os envolvidos a se comprometer com a narrativa verídica e com exatidão.

Mestre em sociologia política, Sérgio Saturnino diz que a contribuição foi importante, não para decidir o voto, mas, principalmente, para decidir o não-voto:

— É mais um “pego na mentira” do que uma aposta no futuro. Não é que o eleitor pense “ele falou a verdade, então, ele vai cumprir as promessas se for eleito”. O eleitor pensa: “bom, pelo menos ele não está entre os mentirosos” — diz.

Cidadãos atentos para monitorar o que é dito além das eleições 

Nas pesquisas com eleitores, se teve alguém que venceu com folga foi a honestidade. Ao preparar o terreno da campanha eleitoral, em março, a pesquisa Retratos da Sociedade Brasileira – Perspectivas para as eleições de 2018, da CNI/Ibope, já antecipava que os eleitores valorizariam, acima de tudo, um candidato que não recorresse ao terreno sujo das mentiras durante a corrida ao poder. 

Por um lado visto como obrigação, por outro, como artigo de luxo, a honestidade é um anseio contraditório que não vem de agora. Foi verificando o discurso dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos que, na década de 1990, o jornalista americano Brooks Jackson, então correspondente de política da CNN, inaugurou a ferramenta de fact-checking (verificação de fatos, dados e discursos), popularizada agora no Brasil, pela primeira vez, nestas eleições.

Apesar de elegerem a honestidade como prioridade entre as características de um candidato, muitos eleitores ainda não se habituaram a usar a régua da verdade. 

Para o professor dos departamentos de Jornalismo e Sociologia Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Jacques Mick, as verificações de discurso passaram ao largo de quem faz do voto uma decisão mais emocional do que racional.

— A minha impressão é a de que no processo eleitoral esses materiais têm atendido mais à motivação dos militantes, mais diretamente engajados, que usam para embasar argumentos contra o adversário, e uma importância mais reduzida na decisão de voto do eleitor — pondera.

Ao serem empregadas pela primeira vez nas eleições do Estado, as verificações de discurso foram ferramenta de qualificação do debate público. Sem a pretensão de apontar o dedo aos candidatos, mais do que apenas etiquetar uma declaração como verdadeira ou falsa, as checagens fizeram circular dados e fatos relevantes para a agenda do país e de SC.

Jacques Mick alerta para a necessidade de os eleitores se voltarem a essa agenda e aos planos de governo, examinando, além da veracidade, se o discurso do candidato também contempla os desafios de gestão que ele terá a partir de 1º de janeiro de 2019. 

— Muitas decisões de voto estão demonstrando seguir mais uma variável moral do que a agenda que o candidato apresenta para o país e o Estado. A política é um processo complexo que, se abordada a partir dessa experiência de "memização" (referência a memes, conteúdos com humor que viralizam na internet) que estamos vendo, corre o risco de deteriorização, com comprometimentos históricos — frisa.

Para os eleitores que antes da campanha eleitoral elegeram a honestidade como característica primordial ao futuro presidente e ao futuro governador, uma tarefa deve perdurar após o resultado deste segundo turno. Caberá verificar se as propostas difundidas nos últimos três meses terão força para se concretizar.

Placar das checagens

Das frases verificadas pelo Prova Real ditas pelos nove candidatos ao governo de SC no primeiro turno e pelos dois que seguiram ao segundo, este foi o resultado das etiquetas:

EXATO: 61
( A afirmação está correta e os dados conferem )

QUASE ISSO: 26
( A informação ou o dado não são exatos, mas aproximados ou arredondados )

NÃO É BEM ASSIM: 32
( A afirmação está correta em parte, mas usa dados fora do contexto ou omite informações )

NÃO FECHA: 10
( A afirmação está incorreta )

É CHUTE: 1
( Não foram encontrados dados para sustentar a afirmação )

Veja na íntegra checagens do Prova Real com Comandante Moisés (PSL) e Gelson Merisio (PSD) neste segundo turno.

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