Famílias no poder: fenômeno comum no país se repete com vitória de Bolsonaro MAURO PIMENTEL/AFP

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Pode-se dizer muita coisa do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) – para o bem e para o mal –, menos que não manterá a família por perto a partir de 2019. Quando ele subir a rampa do Palácio do Planalto, em 1º de janeiro, e dois de seus filhos assumirem vagas na Câmara dos Deputados e no Senado, em 1º de fevereiro, pela primeira vez o país passará a ter um presidente da República com herdeiros nas duas casas do Congresso. De quebra, a prole continuará representada no berço familiar, com uma cadeira na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro garantida até 2020.

A escalada ao poder, claro, não começou agora e não tem o mérito pulverizado, pelo menos não inicialmente. Embora hoje o vereador Carlos, o deputado federal reeleito Eduardo e o senador eleito Flávio, em menor ou maior grau, tenham ou comecem a esboçar agendas relativamente mais independentes, todos vieram na esteira de Jair. Alinhados às mesmas bandeiras, entraram na política por e para Bolsonaro pai – incluindo o mais novo entre os três, Carlos, o primeiro a se candidatar e vencer, com apenas 17 anos. Os outros dois cresceram e apareceram durante a marola do capitão reformado nos anos 2000 e se consolidaram na onda que virou tsunami em outubro de 2018.

– Tem elementos de continuidade, nessa relação de heranças familiares, que é um fenômeno das democracias, em que o capital político herdado de alguma maneira é um recurso sempre mobilizado. E tem elementos de novidade por esse aspecto do Bolsonaro não ser propriamente um outsider, mas que se coloca como fora do jogo político tradicional e leva dois filhos com ele – analisa o doutor em Ciência Política e professor do Departamento de Sociologia e Ciência Política da UFSC, Julian Borba.

Acenando fortemente a um eleitorado cativo, com posições controversas, mas duras sobre temas como homossexualidade, direitos humanos, ditadura militar e segurança pública, juntos os Bolsonaro também romperam ou pelo menos amenizaram as resistências no eleitorado que não estava em nenhum dos “lados” com discurso antipetista e anticorrupção embasado em condutas pessoais sem envolvimento comprovado em grandes escândalos.

Mas especialistas alertam para o fato que dessa união que deu frutos até agora também traz riscos quando o patamar sobe para o comando do país.

– Não vejo com muito bons olhos as oligarquias. Pode ser que dê certo, terá um filho em cada Casa. De qualquer maneira, o que um disser vai afetar os outros. O comentário de um filho (Eduardo), que repetiu uma frase de Jânio Quadros sobre fechar o STF, assumiu dimensões bombásticas e Bolsonaro não perdeu a eleição, mas perdeu alguns votos ali. O presidente pode ter sua popularidade afetada pelos membros da família. Não sei se hábitos positivos da família vão impactar positivamente, mas os negativos seguramente vão – afirma o cientista político e professor da Univali, Fernando Fernandez.

Ações do pai impactarão sobre ambições dos filhos

Diz-se que uma eleição começa quando a anterior termina, mas a análise é de que ainda é muito cedo para cogitar o rumo dos filhos de Bolsonaro na política. Mesmo que o pai cumpra a promessa de não disputar a reeleição, o certo é que nenhum de seus filhos poderá sucedê-lo na cadeira presidencial em 2022. Sequer poderão concorrer a cargos executivos, pois o parágrafo 7º do artigo 14 da Constituição Federal os torna inelegíveis. Para manterem o desempenho como candidatos a futuras vagas no Legislativo, a aprovação do governo de Jair será fundamental.

– Dependerá da capacidade de Bolsonaro fazer um bom governo, e também a capacidade dos filhos de mostrarem personalidade – diz o doutor em Estudos Políticos e professor da Udesc Leonardo Secchi.

Transmissão do poder político é tradição desde os tempos de Brasil colonial

Considerando o exercício de cargos políticos no mesmo período, incluindo a presidência da República, os Bolsonaro só se assemelham à família Sarney desde a redemocratização. Quando José Sarney chegou ao Planalto em 1985, com a morte de Tancredo Neves antes da posse, José Sarney Filho já era deputado federal pelo Maranhão. Já 1990, ano em que Sarney deixou a presidência, marcou a primeira eleição de outra herdeira, Roseana, que também chegou à Câmara dos Deputados.

Daí em diante, o pai e os dois filhos consolidaram a oligarquia: José Sarney foi senador pelo recém-criado estado do Amapá, para onde transferiu o domicílio eleitoral, de 1991 a 2015, quando se aposentou da vida pública após quase 60 anos; Sarney Filho continua deputado federal até hoje e deixará o cargo no início de 2019; Roseana foi deputada federal até 1994, governadora do Maranhão entre 1995 e 2002 e entre 2009 e 2014 e senadora de 2002 a 2009.

Nas eleições deste ano, porém, ao contrário da ascensão dos Bolsonaro, os Sarney conviveram com a queda. Sem a reeleição de Sarney Filho e com a derrota de Roseana ao governo maranhense, o clã teve na reeleição como deputado estadual de Adriano Sarney (PV), neto do ex-presidente, sua única vitória.

Mapeamento da Transparência Brasil em 2014 apontava que 49% dos deputados federais eleitos naquele ano tinham parentes políticos, mostrando a força das dinastias. Exemplos não faltam pelo Brasil: Ferreira Gomes no Ceará, Arraes em Pernambuco, Alves no Rio Grande do Norte, Maia no Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro, Neves em Minas Gerais, Richa e Dias no Paraná, Magalhães na Bahia, Cabral, Cunha, Garotinho e Picciani no Rio de Janeiro, Collor/Mello e Calheiros em Alagoas, Cunha Lima na Paraíba, Jereissati no Ceará, Virgílio no Amazonas, Barbalho no Pará, Capiberibe no Amapá, Caiado em Goiás e Andrada em Minas Gerais.

Poderes herdados

– O início da formação histórica do Brasil foi forjada pelas capitanias hereditárias. O Império também teve esse perfil. As empresas familiares também costumam suceder a direção de pais para filhos, muitas vezes alijando a capacidade técnica. Essa hereditariedade se institucionalizou e virou critério de exercício do poder. Mas o Brasil não está sozinho nisso, veja os Estados Unidos com as famílias Roosevelt, Kennedy, Clinton e Bush. Muitos eleitores querem simplificar escolhas e acabam se apoiando em “grifes conhecidas”, pois relacionam elas a significados: “Kennedy = justiça social”, “Bush = guerra aos inimigos” e isso basta para muitos eleitores fazerem suas escolhas eleitorais – analisa o doutor em Estudos Políticos e professor da Udesc Leonardo Secchi.

Família Amin tem três no poder

Santa Catarina não foge à regra e também tem famílias políticas tradicionais para chamar de suas. A em maior evidência pública atualmente é a Amin, de Florianópolis. Com atuação no Estado há mais de 40 anos, a partir de 2019, pela primeira vez, eles terão três representantes ocupando cargos eletivos ao mesmo tempo. Esperidião Amin foi eleito senador, a esposa Angela se elegeu deputada federal e o filho do casal João foi reeleito deputado estadual.

Os sobrenomes Ramos, Konder e Bornhausen – às vezes sozinhos, às vezes combinados –, também estão entre os mais fortes da história política estadual em todos os cargos, incluindo Nereu Ramos, o único catarinense a ocupar a presidência da República até hoje.

Eleitoralmente, estes clãs estão distantes das vitórias do passado. Na última disputa da qual participou nas urnas, em 2014, Paulo Bornhausen, filho de Jorge Konder Bornhausen e neto de Irineu Bornhausen, foi derrotado por Dário Berger na corrida por uma vaga ao Senado.

Nos bastidores, porém, a família continua atuante. Paulo preside o PSB, que elegeu dois deputados estaduais e um federal em 2018. Na eleição ao governo, apoiou Gelson Merisio (PSD), inclusive batendo de frente com o pai, que declarou publicamente não votar no pessedista como cabeça de chapa. Um dos principais conselheiros e interlocutores do ex-presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB) e entusiasta da candidatura do tucano, Jorge Bornhausen defendia estadualmente um acordo entre PSDB, PSD e PP, o que acabou não ocorrendo.

– As composições foram feitas com a participação do Jorge Bornhausen, a família ainda tem peso. A dinastia, a oligarquia tem disso (de estar sempre presente de alguma forma) –, comenta o cientista político e professor da Univali Fernando Fernandez.

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