O opositor Juan Guaidó, reconhecido por 50 países como presidente interino de Venezuela, pediu nesta segunda-feira a seus seguidores que realizem uma marcha maciça nesta terça-feira (12) a fim de exigir aos militares que desconheçam a ordem do presidente Nicolás Maduro de impedir a entrada de ajuda humanitária americana.

"Vamos às ruas para uma grande mobilização. Hoje nosso pior inimigo é a desesperança, não é permitido se cansar", disse Guaidó em um ato ante universitários.

Alimentos e remédios enviados pelos Estados Unidos permanecem desde quinta-feira em um centro de armazenamento na cidade de Cúcuta, na Colômbia, perto da ponte fronteiriça Tienditas, bloqueada por militares venezuelanos com dois contêineres e uma cisterna.

O Brasil aceitou montar no estado de Roraima um centro de armazenamento de ajuda humanitária para a Venezuela, enquanto Guaidó afirmou que o número de voluntários inscritos para colaborar no processo de assistência subiu para 120.000.

Maduro, que nega a existência de uma crise humanitária, considera a ajuda um "show político" e o início de uma intervenção militar dos Estados Unidos.

O presidente venezuelano culpa as sanções americanas pela escassez de alimentos e medicamentos que atinge os cidadãos combinada a uma hiperinflação.

A marcha de terça-feira, que também homenageará os cerca de 40 mortos em distúrbios neste ano, será a terceira convocada por Guaidó depois das de 2 de fevereiro e de 23 de janeiro, quando ele se autoproclamou presidente interino.

"Aqui não há possibilidade de uma guerra civil porque 90% da população quer mudança", afirmou o líder opositor.

- "Falamos de forma clara com a Força Armada" -

Guaidó disse que, enquanto entra a ajuda americana que está em Cúcuta, entregou nesta segunda-feira a organizações da Igreja cerca de 80.000 suplementos nutricionais para crianças e 4.500 para grávidas, sem dizer onde os obteve.

"Falamos de forma muito clara com a Força Armada, para que se coloque do lado da Constituição, que permita a entrada de ajuda, que não reprima o povo", afirmou Guaidó.

Embora tenha classificado o envio de ajuda como um "show", o ministro da Defesa, Vladimir Padrino, anunciou que a Força Armada tem "presença reforçada em toda a fronteira".

Tentando fissurar a Força Armada, o líder opositor ofereceu anistia aos militares que deixarem de reconhecer Maduro e advertiu-os que impedir a entrada de alimentos e remédios é um "crime contra a humanidade".

Na semana passada, os Estados Unidos anunciaram considerar eximir de sanções qualquer militar venezuelano de alto escalão que reconhecer Guaidó.

"Não há sanções que desafiem ou quebrem a dignidade nacional" dos militares, disse Padrino, um dos sancionados, nesta segunda-feira.

O ministro destacou que exercícios militares tiveram início no domingo e serão concluídos na sexta, para enfrentar uma eventual invasão dos Estados Unidos.

Um movimento opositor venezuelano pediu nesta segunda-feira para o legislativo autorizar a entrada de uma "força multinacional" caso o governo insista em bloquear a ajuda.

O governo de Donald Trump, com o qual Maduro rompeu relações por considerar que está por trás de um golpe de Estado, não descarta o uso do exército na Venezuela.

Uma conferência sobre ajuda humanitária será realizada na quinta-feira na sede da Organização dos Estados Americanos (OEA), à qual Guaidó pedirá também apoio para organizar futuras eleições.

- "No olho do furacão" -

Enquanto Maduro tem o apoio da Rússia, Turquia, Irã e China, Guaidó conta com o impulso decisivo dos Estados Unidos e respaldo crescente da América Latina e da União Europeia, ao qual a Itália se somou nesta segunda, pedindo "eleições livres" na Venezuela. Roma, no entanto, ainda não reconhece o opositor como presidente interino.

"A Venezuela está no olho do furacão geopolítico do mundo", disse Maduro nesta segunda-feira.

Francisco Sucre, representante de Guaidó em Roma, reiterou nesta segunda-feira que não há "condições para a mediação e o diálogo", após pedir o apoio da Itália e do Vaticano a novas eleições.

"Hoje o tempo está a nosso favor, cada dia é um passo mais perto da democracia", acrescentou Guaidó.

Sem dar detalhes, a Controladoria do país abriu nesta segunda-feira uma investigação patrimonial de Guaidó porque "supostamente recebeu dinheiro proveniente de instâncias internacionais e nacionais sem nenhum tipo de justificativa".

"As ameaças de todos os funcionários do governo não nos intimidam", disse o opositor.

* AFP

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