O líder opositor venezuelano Juan Guaidó, reconhecido por 40 países como presidente interino da Venezuela, redobrou nesta quarta-feira (6) seus esforços para obter um apoio em bloco da União Europeia (UE) e fazer entrar a ajuda humanitária, após receber um novo impulso dos Estados Unidos.

Guaidó se reuniu com delegados da UE e disse avançar em seu plano para que entre, a partir da Colômbia, a ajuda enviada pelos Estados Unidos, cujo presidente, Donald Trump, ratificou o apoio em seu discurso anual na noite de terça-feira e receberá em 13 de fevereiro o chefe de Estado colombiano, Iván Duque, para tratar da crise venezuelana.

"Conversamos com representantes da UE para consolidar seu apoio e a transição democrática. Agradecemos o reconhecimento aos esforços empreendidos por resgatar nossa liberdade", disse Guaidó, de 35 anos.

Ao expirar um ultimato dado ao presidente Nicolás Maduro para que convoque uma eleição presidencial, cerca de 20 países encabeçados por Espanha, França e Alemanha reconheceram Guaidó na segunda-feira como presidente interino, mas a Itália impediu um apoio em bloco da UE.

Buscando convencer Roma, Guaidó solicitou ao vice-primeiro-ministro e ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, que receba delegados da oposição venezuelana, para explicar seu "plano de transição para recuperar a democracia na Venezuela".

Um encontro com Salvini foi fixado para segunda-feira 11 de fevereiro na sede do ministério do Interior, informou a entidade, que não informou a hora.

O reconhecimento europeu se somou ao dos Estados Unidos - país com o qual Maduro rompeu relações diplomáticas pelo apoio a Guaidó -, Canadá e uma dezena de países latino-americanos.

"Pretendeu-se montar um governo paralelo fracassado, que não existe, virtual", declarou nesta quarta-feira (6) à emissora russa RT Maduro, que conta entre seus aliados com Rússia, China, Irã e Turquia.

Guaidó pedirá à UE a "proteção" de contas e ativos venezuelanos, como fez Washington, que embargará a compra de petróleo venezuelano a partir de 28 de abril.

Em declarações à RIA Novosti, o representante da Venezuela na OPEP, Ronny Romero, disse que os 500.000 barris vendidos aos Estados Unidos "serão redirecionados a outros clientes em Europa e Ásia".

"Rússia e China não se importam com as sanções de Washington", acrescentou.

- "Pacientes caindo como moscas" -

Militares venezuelanos bloquearam com três caminhões a ponte de Tienditas, na fronteira com a Colômbia, onde está um centro de fornecimento de ajuda, embora a oposição ainda não anuncie por onde, como ou quando entrará a carga.

"Pedimos aos militares que deixem a ajuda entrar", disse Guaidó durante um encontro empresarial, ao destacar que os uniformados devem decidir se estão do lado da "ditadura" ou do povo.

Ao se referir ao bloqueio da ponte, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, exigiu pelo Twitter que Maduro deixe entrar a ajuda que "o povo venezuelano precisa desesperadamente".

Guaidó convocou para uma mobilização em 12 de fevereiro e a outra em data a definir para exigir aos militares, sustentação de Maduro, que abram um caminho para a ajuda, inicialmente para os "300.000 venezuelanos a ponto de perder a vida".

Na pior crise de sua história moderna, a Venezuela sofre com escassez de 85% de remédios e de alimentos. Segundo a ONU, 2,3 milhões de pessoas deixaram o país desde 2015.

"A ajuda é muito necessária. Não se pode continuar esperando que os pacientes continuam caindo mortos como moscas esperando medicamentos", assegurou à AFP Mildred Valera, sobrevivente de câncer de mama de 38 anos.

Maduro, que culpa as sanções dos Estados Unidos de desabastecimento, sustenta que Guaidó quer abrir a porta a uma intervenção militar estrangeira, sob o pretexto da "emergência humanitária".

"É um show político tudo o que têm chamado de ajuda humanitária. O imperialismo não ajuda ninguém no mundo", disse o presidente à RT.

Os Estados Unidos ofereceu uma ajuda inicial de 20 milhões de dólares, o Canadá, de US$ 40 milhões, e a União Europeia, aprovou na terça-feira o envio de US$ 7,5 milhões, uma "esmola", segundo Maduro.

Em 14 de fevereiro será realizada uma conferência sobre a ajuda humanitária na sede da Organização de Estados Americanos (OEA).

O conselheiro de segurança nacional dos EUA, John Bolton, informou que o governo está disposto a eximir de sanções os militares da Venezuela que reconheçam o opositor Juan Guaidó como presidente interino e única autoridade legítima desse país.

"Os Estados Unidos considerará eximir de sanções todo militar de alto escalão da Venezuela que defenda a democracia e reconheça o governo constitucional do presidente Juan Guaidó", anunciou Bolton no Twitter.

Horas depois, Maduro acusou os EUA de estimular os militares a dar um golpe de Estado.

"Hoje outra vez o conselheiro de segurança da Casa Branca, John Bolton, volta a pedir que os militares venezuelanos deem um golpe de Estado, ignorando a Constituição e se colocando a serviço da Casa Branca e de Donald Trump", disse Maduro em um ato com soldados em uma base aérea do estado Zulia (oeste).

- "Contra a maldade de Trump" -

Guaidó, chefe do Parlamento de maioria opositora, agradeceu a Trump pelo apoio renovado à "busca de liberdade" na Venezuela e por denunciar a "brutalidade do regime" de Maduro.

Para o chanceler Jorge Arreaza, o discurso mostrou que Trump encabeça "a tentativa de golpe de Estado na Venezuela" no "estilo da Guerra Fria".

Maduro pediu para coletar desde a quarta-feira 10 milhões de assinaturas contra a "ação intervencionista de Trump".

"Todo mundo quer acabar com a Venezuela. Vim assinar contra a maldade de Trump. Eles estão com os medicamentos escondidos, por isso não chegaram", disse à AFP na Praça Bolívar Carmen Cedeño, de 61 anos.

Oito países da UE e cinco latino-americanos (Bolívia, Costa Rica, Equador, Uruguai e México) se reunirão na quinta-feira, em Montevidéu, para buscar uma saída para a crise.

Maduro espera que saia dali uma mesa de diálogo, mas Guaidó se recusa a aceitar "um falso diálogo".

Uruguai e México propuseram nesta quarta-feira junto à Caricom um mecanismo de diálogo sem condições prévias para facilitar uma solução negociada da crise em Venezuela.

O chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, e seu colega mexicano, Marcelo Ebrard, apresentaram à imprensa o "Mecanismo de Montevidéu", que prevê quatro fases e a facilitação de personalidades de reconhecida trajetória internacional.

"Se pedirmos eleições em tal momento estamos impondo condições que dificultam o diálogo. São eles (governo e oposição, ndr) que devem chegar a um acordo. Vamos ao diálogo sem condições", declarou.

Para tentar deter o opositor, Maduro quer antecipar de 2020 para este ano as eleições legislativas, apostando em que a oposição perca o único poder que controla.

Guaidó se autoproclamou presidente interino em 23 de janeiro, depois de o Parlamento declarar Maduro um "usurpador" por ter sido reeleito em eleições consideradas fraudulentas dentro e fora da Venezuela.

* AFP

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