O procurador especial Robert Mueller, encarregado da investigação sobre o "Russiagate", disse não estar "em condições" de isentar o presidente americano, Donald Trump, das suspeitas de obstrução de Justiça, em seu relatório divulgado nesta quinta-feira (18).

"Se tivéssemos certeza, após uma investigação rigorosa, de que o presidente não cometeu, claramente, obstrução de Justiça, nós diríamos. Com base nos fatos e nos padrões legais aplicáveis, não estamos em condição de fazer essa avaliação", escreve o procurador Robert Mueller.

Segundo o texto, Trump tentou destituir Mueller da investigação sobre a suspeita de ingerência russa nas eleições de 2016.

Os esforços de Trump para tirar Mueller se deram depois que a imprensa publicou informações de que o presidente estava sob investigação por obstrução de Justiça, indicou o relatório.

De acordo com o informe, em 17 de junho de 2017 Trump telefonou para seu assessor Don McGahn e lhe disse que "ligasse para o vice-procurador-geral e que dissesse que o procurador especial tinha conflitos de interesse e deveria ser destituído".

O documento relata ainda que a equipe de campanha do magnata nova-iorquino se reuniu em 9 de junho de 2016 com advogados russos, com a esperança de conseguir material para melhorar suas perspectivas nas eleições.

"As comunicações escritas para programar o encontro mostram que a campanha esperava receber informação da Rússia que pudesse alavancar as perspectivas eleitorais do candidato Trump", aponta o informe, acrescentando que a reunião realizada na Trump Tower não teve resultado concreto.

- Trump comemora -

O relatório foi divulgado hoje pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, com vários trechos censurados para, segundo o governo, proteger dados confidenciais.

Com mais de 400 páginas, o documento foi editado pelo procurador-geral dos EUA, Bill Barr, para proteger as investigações, assim como as fontes.

"O informe do procurador especial afirma que a investigação não estabeleceu que membros da campanha conspiraram, ou estiveram em coordenação com o governo russo em suas atividades de interferência nas eleições", disse Barr mais cedo, em entrevista coletiva.

Barr afirmou que Trump não agiu para impedir a investigação de Mueller, em meio a acusações de obstrução de Justiça.

"Há provas substanciais que mostram que o presidente estava frustrado e irritado com a convicção de que a investigação estava afetando sua presidência, que era promovida por seus opositores e que foi alimentada por vazamentos ilegais", disse Barr antes da publicação do relatório de Mueller.

O relatório mostra Trump em uma atitude desfavorável, reagindo nervoso ao escândalo em 2017. "Meu Deus, isso é terrível, é o fim da minha presidência, estou ferrado", disse ele quando o então procurador-geral Jeff Sessions informou que Mueller, ex-diretor do FBI, havia sido nomeado para conduzir as investigações, segundo o documento.

O procurador-geral ressaltou que a Casa Branca "cooperou" plenamente com a investigação especial.

"O presidente não tomou qualquer ação que privasse o procurador especial de documentos, ou das testemunhas necessárias para completar sua investigação", declarou Barr.

O secretário afirmou ainda que os advogados do presidente americano tiveram acesso a uma versão editada do informe de Mueller, antes de sua divulgação nesta quinta.

A Casa Branca não fez nenhuma mudança no relatório, nem exerceu o privilégio do Executivo de proteger informação, completou o procurador-geral.

O presidente Trump comemorou a divulgação do documento, afirmando, mais uma vez, que a investigação foi "uma fraude".

"Game Over", tuitou Trump, com uma imagem, na qual aparece de costas, cercado de névoa, imitando o estilo da popular série "Game of Thrones".

"Hoje estou tendo um dia bom", disse Trump, depois que o Departamento de Justiça publicou o relatório, fruto de uma investigação de 22 meses.

"Como venho dizendo esse tempo todo, NÃO HOUVE CONLUIO NEM OBSTRUÇÃO", comemorou no Twitter.

Mais tarde ele se defendeu dizendo que "tinha o poder de acabar com toda essa caça às bruxas se quisesse. Eu poderia ter demitido todo mundo, mesmo Mueller, se quisesse. Eu escolhi não fazer isso".

E, no Twitter, considerou que a interferência da Rússia ma eleição de 2016 "não mudou" o resultado da votação.

A publicação do relatório não esclarecerá todas as dúvidas, porque fragmentos dele estão riscados para proteger fontes de inteligência ou investigações em andamento.

O legislador Jerrold Nadler, presidente da Comissão de Justiça da Câmara dos Representantes, disse que "mesmo com a publicação incompleta, o relatório de Mueller mostra evidências perturbadoras de que o presidente Trump se envolveu na obstrução da justiça e em outros crimes".

Por isso, o Congresso exigiu que Barr entregasse uma versão não editada para garantir que suas alterações não protejam Trump.

* AFP

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