Sobre a OMS e a carne processada: "peito de peru e chester também não são saudáveis" Diego Vara/Agencia RBS

Foto: Diego Vara / Agencia RBS

Finalmente, a Agência Internacional para pesquisa sobre o Câncer (IARC, sigla em inglês) vem reforçar o que já sabíamos: peito de peru, chester e outros embutidos não são opções saudáveis para serem consumidos diariamente. Sim, eles são carnes pouco calóricas e foram “vendidas” como opções saudáveis para uma dieta ou reeducação alimentar, mas na verdade não são. A confusão deu-se, acredito, porque a carne de peru é uma carne magra e uma ótima opção de proteína, mas não na forma de embutido com a adição de todos os aditivos que fazem parte desse processo.

A IARC, órgão subordinado à Organização Mundial da Saúde (OMS), advertiu em relatório que o alto consumo de carnes processadas é potencialmente cancerígeno para o homem, e que o consumo diário de 50g desse alimento aumenta em 18% o risco de câncer colorretal. O relatório da agência, baseado na “literatura científica acumulada” e examinada por 22 especialistas de 10 países, me deixou particularmente feliz pelo consistente alerta. Mas não foi nenhuma surpresa, já que vem ao encontro do que oriento em consultório quando me perguntam sobre o peito de peru, chester e outros embutidos.

Quando se fala em produção de carne processada, temos que pensar que muitas vezes o que menos se utiliza é a carne em si, já que por definição carne processada é uma combinação de carne e outros tecidos animais como vísceras, pele e sangue, além de produtos como leite ou soja em pó que são utilizados como enchedores. E, pela classificação do IARC, as carnes processadas foram colocadas na lista do grupo 1 de carcinogênicos, junto com tabaco, amianto e fumaça de diesel, que se caracterizam por serem substâncias com evidências suficientes de ligação com o câncer.

Mas isso também não quer dizer que é preciso excluir esses alimentos para sempre do cardápio: eu acredito no equilíbrio. Até porque o nosso corpo não é uma máquina delicada e indefesa. Pelo contrário. Ele sabe lidar muito bem com esses agressores, com uma ressalva: desde que tenha o suporte de uma dieta saudável e cheia de nutrientes, e tempo para agir e se recuperar entre uma “agressão” e outra.

Consumo de carne processada aumenta o risco de câncer em 18%, alerta a OMS

No que toca às carnes processadas, o relatório da IARC me parece estar correto. Já a inclusão da carne vermelha no grupo 2 (de substâncias “provavelmente cancerígenas”) chamou minha atenção. Achei uma classificação bastante temerária, já que a carne vermelha é uma fonte importante de vitamina B12, ferro e proteína na dieta e classificá-la como provável causadora de câncer sem um suporte científico pode causar um histerismo desnecessário. Afinal, nesse grupo estão produtos que poderiam aumentar o risco de câncer, mas sobre os quais ainda não existem dados suficientes e conclusivos acerca disso. E alguém lembra de como o ovo foi crucificado durante anos por aumentar o colesterol, até que estudos definitivos provaram que ele aumenta sim, mas o colesterol bom?

Até que novos estudos sejam feitos, contra ou a favor da carne vermelha, minha recomendação é novamente o equilíbrio, até porque, além de não conseguirem relacionar de forma definitiva o consumo de carne vermelha ao aumento do risco de câncer, os estudos não esclareceram se a forma de preparo tem relação ou não com o aumento do risco. E esse é o caso de um dos pratos mais tradicionais da Região Sul: o churrasco, onde a carne fica exposta o tempo todo à fumaça (alcatrão), que é uma substância cancerígena. De quem seria a culpa nesse caso? Da carne ou do alcatrão?

Penso que precisamos estudar um pouco mais para não sermos injustos com ela. De qualquer forma, vale a pena reduzir seu consumo e alternar com outras boas fontes de proteína como peixes, frango e ovos. E embora alguns especialistas falem que 500g de carne vermelha por semana sejam uma boa medida, o consumo é individual e deve ser avaliado caso a caso, considerando condição clínica, existência de doenças, necessidade de perda de peso e o gosto pessoal. Hoje já é possível saber, por meio de exames que levam em consideração o perfil genético da pessoa, de que forma o seu organismo consegue processar, digerir e absorver proteínas, ou seja, é possível saber quanto comer de carne vermelha. O exame de genética diz se o seu organismo é um bom metabolizador de carboidrato, proteína, gordura, e com base nisso é possível saber e adequar a quantidade de proteínas na dieta.

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Mas, voltando ao que mais nos interessa no relatório da IARC, que é o alerta sobre a carne processada, há dois pontos importantes a serem considerados:

1) Os estudos mostram que o potencial cancerígeno está no consumo frequente de embutidos e afins, ou seja, para que o risco de câncer esteja aumentado é necessário que se consuma 50g de carne processada todos os dias. Isso merece uma atenção, já que equivale a mais ou menos 3 fatias de bacon ou de peito de peru, e é possível chegar fácil e muito rapidamente a essa quantidade em um dia. Por isso a melhor opção é riscar esses alimentos do cardápio diário, deixando o consumo para eventualidades.

2) O maior problema desses alimentos não está na carne em si, mas principalmente nos aditivos utilizados para melhorar o sabor e dar maior vida de prateleira a eles. Dentre os aditivos utilizados estão o nitrito, que em contato com o ácido clorídrico do estômago se transforma em nitrosamina, um composto cancerígeno. Em produtos defumados, utiliza-se ainda o alcatrão (fumaça/defumação), uma substância presente no cigarro e cujo potencial cancerígeno já é conhecido de todos. Isso sem falar do glutamato monossódico, um realçador de sabor, largamente utilizado hoje em dia, e que pode provocar doenças mentais sérias como Alzheimer.

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DIÁRIO CATARINENSE
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