Os eleitores catarinenses vão às urnas para o primeiro turno da eleição presidencial e dão ao principal nome da oposição ao governo federal o seu maior percentual de votos em todo o Brasil. A frase resumiria bem os 52,89% dos votos que o tucano Aécio Neves recebeu em Santa Catarina em 5 de outubro do ano passado e que consolidaram o Estado como o mais antipetista do país.

Curiosamente, a frase também cai como uma luva para o dia 6 de outubro de 2002, quase 12 anos antes, quando Luiz Inácio Lula da Silva recebeu o endosso de 56,6% dos catarinenses. É claro que ser um Estado de direita ou esquerda significa mais do que votações e momentos eleitorais. Mas a chamada Onda Lula que mexeu com todo o contexto político local – o PT elegeu uma senadora e as maiores bancadas de deputados federais e estaduais na cola da votação do candidato a presidente – talvez sirva para diferenciar a postura conservadora e composicionista que marca nossa política desde sempre e o atual momento de rejeição ao petismo. Um momento construído, ironicamente, a partir da chegada do PT ao Palácio do Planalto.

Leia o especial: Somos um Estado de direita?

A raiz conservadora da política catarinense já estava presente no início da República, quando o Partido Republicano dividia o comando do Estado entre seus líderes, ora sob a batuta de Lauro Müller, ora de Hercílio Luz. Desde então, as acirradas rivalidades político-eleitorais foram produzidas entre grupos conservadores com diferenças de origem e viés. Rixas que, em momentos de perigo externo, resultavam em grandes alianças e composições. Um exemplo clássico é o duelo entre os Ramos e os Konder Bornhausen, PSD e UDN, os fazendeiros de Lages contra os industriais-banqueiros de Itajaí, que se digladiaram na arena política por 50 anos até se renderem à necessidade, forçada pelo regime militar, de abraçarem-se em outra Arena, o partido que lhes deu sobrevida política durante a ditadura.

O fim do regime trouxe nova rivalidade eleitoral entre forças que divergiam mais em seus tons de conservadorismo: PDS, herdeiro da Arena, e PMDB. O tempo diluiria esse antagonismo a picuinhas quase pessoais, com dissidências políticas que se abraçaram e formaram a atual coalizão governista que sustenta o governo de Raimundo Colombo, nascido no PDS, eleito e reeleito com vice do PMDB.

Nesse cenário, as forças de esquerda sempre fizeram figuração na luta política. O velho PTB getulista teve alguma dimensão como fiel da balança nas disputas entre UDN e PSD, chegando a fazer Doutel de Andrade e Francisco Dall’Igna vice-governadores em aliança com os pessedistas em 1960 e 1965. Nada além disso.

Nos anos 1990, o PT foi paulatinamente ganhando terreno nessa disputa histórica entre os mais e os menos conservadores. Viu suas bancadas parlamentares crescerem a cada eleição, conquistou Blumenau, Chapecó, Criciúma. A Onda Lula parecia consolidar os petistas como protagonistas na política de Santa Catarina e dar a seu eleitor, talvez pela primeira vez, uma opção consistente de poder à esquerda.

Passadas três eleições presidenciais em que os candidatos do PT, Lula e Dilma Rousseff, foram derrotados por aqui, existem diversas teorias para explicar o que deu errado. A maioria recai sobre o conservadorismo do eleitor do Estado. É possível que seja, mas não é prudente descartar a hipótese de que os petistas catarinenses não souberam ser essa alternativa de esquerda que Santa Catarina ainda não conheceu.

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DIÁRIO CATARINENSE
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