O menino que virou formiga Gabriel Felipe / RBS TV/RBS TV

Foto: Gabriel Felipe / RBS TV / RBS TV

Vitor Pinto, dois anos, não é mais um menino igual aos outros, de carne e osso, desses que perto dos pais aprendem as primeiras lições. Pela crença dos ancestrais caingangues, etnia a que pertence, após a morte há uma transição para outras formas de vida. Soube que uma dessas pode ser para insetos. Há citação para formigas, e que obviamente tem significado que precisa ser contextualizado. Porém, essa "passagem" ocorreu com o fio da mais cruel das lâminas, o da violência. A criança foi degolada enquanto era alimentada pela mãe, embaixo de uma árvore, na frente da rodoviária de Imbituba, no Sul do Estado.

Uso "formiga" como licença poética para escrever o primeiro texto de 2016, ainda que de belezas da poesia nada possa trazer diante dessa brutalidade. Afinal, o crime, por volta do meio-dia da última quarta-feira, dia 30 de dezembro, não manchou apenas a blusa branca que a mãe, a índia Sônia da Silva, vestia. Tampouco só o chão de cimento. Ensanguenta a sociedade que não se divide entre índios e não-índios. Em se tratando de violência contra criança, especialmente, todos temos uma aliança: a defesa da vida.

Até a tarde de sexta-feira, 1º de janeiro, a arma do suspeito (já confessou, porém, só depois de julgado podemos falar em réu confesso e ainda que com a prisão preventiva decretada pela Justiça) não havia sido localizada. Pelo corte pequeno e profundo no pescoço da criança, suspeita-se de um estilete. O preso tem 23 anos, está desempregado e usa drogas. Já esteve preso por violência familiar. Não assumiu a motivação do crime do menino. O delegado responsável pela investigação tem duas hipóteses: surto ou preconceito.

Os caingangues são um povo de língua Jê, que vive em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul, Paraná e em São Paulo. A sociedade deles se divide em duas metades: uma kamé, outra kairu. Esse sistema surgiu na criação do mundo e no princípio representava espíritos que apareceram para povoar a terra. Primeiro, fizeram os animais, as plantas e os astros. Cada qual fez os seus: kamé os seres compridos e riscados; kairu os redondos e malhados.

A mãe de Vitor é kairu. Ele era, assim como o pai, kamé. Porém, uma diferença marca essa relação entre os dois. Vitor não teve nenhuma fotografia tirada em sua breve vida. Ao contrário do pai, que neste dia 1º de janeiro teve a imagem registrada durante o funeral. Numa das fotos, ele mostrou um bezerrinho de plástico, o brinquedo preferido do caçula.

A família de Vitor é originária da Aldeia Condá, no município de Chapecó, Oeste do Estado. São evangélicos. Sônia e o marido, Arcelino Pinto, trouxeram também outras duas filhas, com seis e 15 anos. Haviam chegado em Imbituba no dia 18 de dezembro, repetindo a rotina dos últimos três anos, quando descem para vender cestarias no litoral do Estado.

Quem observa as ruas das cidades catarinenses sabe: crianças índias costumam acompanhar os pais em suas atividades. A presença não é considerada negligência. Mas um momento lúdico, em que meninos e meninas aprendem com os mais velhos sobre o cotidiano. Também sobre as memórias dos antepassados. E isso ocorre no período das férias escolares.

Assim como eu, muita gente acha que o crime não teve a repercussão merecida na sociedade como um todo. Parte por causa da data. Todos sabemos que nesta época tudo funciona em sistema de plantão, como repartições públicas e imprensa.

Mesmo assim, no último dia do ano, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi Regional Sul) emitiu nota de indignação pelo crime. "Trata-se de um crime brutal, um ato covarde, praticado contra uma criança indefesa, que denota a desumanidade e o ódio contra outro ser humano. Um tipo de crime que se sustenta no desejo de banir e exterminar os povos indígenas", descreve o documento.

O Cimi lembra que o crime ocorreu em um local que a família imaginava ser seguro: as rodoviárias são espaços frequentemente escolhidos pelos caingangues para descansar. Há preocupação com o clima de intolerância contra os índios. Nestes últimos dias, pelo menos cinco foram assassinados no Maranhão, Tocantins, Paraná e Santa Catarina. Relatório da Violência contra Povos Indígenas no Brasil, de 2014, revela que 70 pessoas foram assassinadas no período.

A Fundação Nacional do Índio (Funai) também se manifestou. A posição oficial se espalhou por todo o país. A Funai demonstrou consternação e revolta pelo "assassinato brutal" e externou solidariedade à família.

Para os caingangues, observa a pesquisadora Juracilda Veiga em artigo sobre "Etnologia Indígena", a morte é a contraparte da vida, parte indissociável dela. Uma espécie de uma outra aldeia, que está em outra dimensão em relação àquela dos vivos: quando aqui é dia, no mundo dos mortos é noite, e vice-versa. Se aqui faz tempo seco, no mundo dos mortos está chovendo. Tanto os mortos podem vir ao mundo dos vivos, quanto os vivos podem, em determinadas situações, ir ao mundo dos mortos. No caso do menino Vítor não foi exatamente assim. Ele foi cruelmente levado.

*Jornalista Amiga da Criança (Andi/Unicef) e especialista em Metodologias para Atendimento de Crianças em Risco e em Políticas Públicas

DIÁRIO CATARINENSE
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