"Há oito anos eu frequentei o consultório do doutor Omar, e agora quero testemunhar contra ele" Betina Humeres/Agencia RBS

Foto: Betina Humeres / Agencia RBS

Não sou de escrever textos muito pessoais no Facebook. E nas raras vezes em que o fiz, não os tornei públicos, compartilhei apenas com amigos selecionados. Mas o soco no estômago nesta terça-feira foi grande e senti necessidade de falar…

Há oito anos comecei um trabalho e me pediram para emagrecer. Não vou entrar no mérito porque não é essa a intenção. Recebi a indicação de um médico por várias pessoas, entre elas uma amiga que estava magérrima. Fui. O tal doutor nem olhou na minha cara e me receitou quatro manipulações (também não entrarei nesse mérito…). Mesmo sem fazer 100% do tratamento recomendado, emagreci mais de dez quilos e cheguei ao peso que tinha aos 17 anos.

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O episódio aconteceu em um dos retornos. Agora que eu estava magra o tratamento foi diferente. Brigava comigo cada vez que eu o chamava de "senhor". Insistia para que eu o chamasse só pelo nome. Ficava encostando. Seboso. Grudento. Inconveniente. Tudo era motivo pra elogio. “Com teu rosto, podias ser miss!” (detalhe: tenho 1,54m…) Era nojento, mas dava pena. Parecia querer agradar a qualquer custo. Eu dava um sorrisinho amarelo e engolia.

Até que veio examinar minha tireoide. Me pediu pra ficar de pé, veio por trás e colocou a mão no meu pescoço…mas não foi apenas minha tireoide que foi apalpada… Ele me “encoxou”! Me incomodou, me deu nojo, mas não me revoltou. “Imagina que ele tá fazendo isso! Isso é coisa da tua cabeça. Tás louca. Capaz!”, foi meu pensamento.

Durou uns cinco segundos no máximo. E mesmo envergonhada, dei um passo pra frente. Sim, foi minha única reação. A vergonha foi por pensar algo tão absurdo de alguém tão ‘distinto’. “Imagina! Um médico tão conhecido. Já me deu até entrevista!”

Nunca contei pra ninguém. Era casada na época e meu ex-marido estava na sala de espera e nem imagina. Também não saí gritando, chorando, não me senti um lixo e nem fui tomar 3 horas de banho depois. “É coisa da minha cabeça e ponto.”

E assim foi até esta terça-feira. É, não era "piração" minha afinal…

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Mas o nojo com a situação, com os relatos de tantas pessoas, com tanto absurdo não chega aos pés da revolta com meu próprio pensamento, minha reação e minha vergonha sem razão… E é isso que está martelando na minha cabeça desde o início da manhã.

Conversei com várias amigas e, sem citar nomes, deixo aqui algumas respostas que ouvi hoje:

“Tenho um histórico também. Qual mulher não tem?”

“A gente sempre pensa que a gente tá fantasiando.”

“Uma vez um médico ficou me pegando de um jeito estranho. Eu tava deitada na maca, de blusa levantada e fiquei super sem graça. Até hoje não tenho certeza se foi piração minha ou não. Meu marido tava do outro lado do biombo.”

“Pior foi eu me sentir desejada.”

“Incorporamos a violência. Ou somos culpadas ou somos gratas por sermos desejadas.”

Em resumo, TODAS minhas amigas tinham histórias (inclusive com o tal médico) pra contar. E nenhuma delas gritou, nenhuma delas chorou, nenhuma delas se sentiu um lixo. E isso não sai da minha cabeça. A violência está sim incorporada. É o mais triste do machismo: ele não torna as pessoas incapazes apenas de respeitar o outro, ao que parece - e é o mais duro - ele nos torna incapazes de respeitar nós mesmas.

DIÁRIO CATARINENSE
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