Adeus a Zygmunt Bauman: pai do conceito "modernidade líquida" Nicodemos Martins Manfio/Arquivo pessoal

Foto: Nicodemos Martins Manfio / Arquivo pessoal

Falecido no último dia 9 de janeiro aos 91 anos em sua casa em Leeds, na Inglaterra, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman deixa enormes contribuições para a compreensão dos fenômenos sociais atuais, desafios aos estudantes de sua densa obra e muita saudade. Seu legado estará sempre vivo por meio das entrevistas, dos quase 60 livros (42 traduzidos para o português), de suas palestras e exemplos de vida. 

Conhecido no mundo todo por ter criado o conceito de "modernidade líquida", que descreve o estado atual da sociedade de fluidez, volatilidade, insegurança e incerteza, o autor se destacou por ajudar a compreender a vida social ligada a uma lógica de consumo e artificialidade. Deixa esposa, 
Aleksandra Kania, e três filhas do primeiro casamento, Anna, Lydia e Irena.

Quando tive a honra de conhecer Bauman, em Leeds (foto), não imaginava que pudesse desenvolver tamanho apreço pela pessoa dele. A academia brasileira que eu conhecia estava infestada de disputas e egos que tornam as relações nas universidades superficiais e traiçoeiras. Ao encontrá-lo, ao contrário da visão que tinha por conta das experiências, sua generosidade, hospitalidade, paciência e interesse pelas minhas dúvidas e assuntos que conversávamos me surpreenderam. Foram lições importantes que aprendi com ele, pessoalmente, pelos livros e por e-mails.

Suas obras refletem profunda sensibilidade para com os problemas sociais, em especial com aqueles que sofrem mais as consequências do capitalismo e da globalização. Bauman foi marxista no início da sua carreira acadêmica. Naquela que alguns de seus principais intérpretes como Smith, Tester e Beilharz chamam de primeira fase, escreveu livros preocupado em apontar os males do capitalismo. Trata-se da fase de seu pensamento menos conhecida no Brasil e aquela em que produziu menos livros.

Aprendeu com seus mestres poloneses, desconhecidos no Ocidente, Stanislaw Ossowski e Julien Hochfeld, que "é a consciência da incompletude que torna o comentário do estudioso da sociologia valioso para as pessoas que enfrentam diariamente os desafios da vida" (2011). Impressiona, na análise de sua trajetória acadêmica, como a Universidade de Varsóvia do pós-stalinismo era aberta a ensinar teorias das mais variadas vertentes. Essa prescindível filiação teórica é fundamental para compreender seu pensamento.

Charge feita pelo prefessor Claudio Santos em homenagem ao filósofo Bauman  Foto: Claudio Santos / Reprodução

A segunda fase ficou conhecida como a da ordem e das reflexões sobre a modernidade. Publicou livros em que se preocupou em compreender as consequências da passagem da modernidade para o que chamou, num primeiro momento, de pós-modernidade. Seu livro Modernidade e Holocausto (1989) foi galardoado com o prêmio Amalfi e, mais tarde, recebeu o prêmio Adorno (1998) pelo conjunto da obra. Embora poucos saibam, foi a influência do livro Inverno na Manhã, de sua primeira esposa, Janina (1926-2009), que o motivou a escrevê-lo. Nele, ela fez relato triste e chocante de como foi viver garotinha nos guetos de Varsóvia durante a Segunda Guerra. Escancarou para Bauman uma realidade diferente da que conheceu no front de batalha, lutando contra o nazismo.

Finda a guerra, Bauman trabalhou para o serviço secreto soviético com o codinome Semjon, revelado pelos arquivos históricos poloneses. Desiludido, ao abandonar a carreira militar (na qual chegou a major) e o partido comunista para dedicar-se à universidade, passou a ser perseguido. Tendo se tornado crítico do marxismo ortodoxo e do regime stalinista, no final da década de 1960 foi expulso da Polônia. Junto com sua família, sentiu na pele o paradoxo de ter lutado contra o nazismo que assassinava judeus e, mais tarde, ser acossado e expulso de seu país pelo antissemitismo do exército pelo qual dedicou parte de sua juventude.

Passou por diversas universidades ao redor do mundo, antes de se estabelecer na Universidade de Leeds na década de 1970, onde se tornou chefe do departamento de sociologia e trabalhou até sua aposentadoria em 1990. O documentário Lawnswood Gardens (2011) do diretor polonês Pawel Kuczynski, mostra a história de sua vida e a admiração dos colegas e amigos pelo trabalho e obras neste período. Nele fica evidente o quanto os horrores da guerra influenciaram seu lado humano, despertando ainda mais preocupação com a moral e a ética. O documentário revela peculiaridades sobre o pensador interessado pela cozinha, pela elaboração de vinhos e fotógrafo premiado. Essa fase marcou a passagem entre a despedida do marxismo e o surgimento do autor dedicado a compreender o mal-estar da pós-modernidade, sua ambivalência e as consequências dos discursos da ordem.

Um autor esperançoso no diálogo e humanidade 

A terceira fase de seu pensamento é aquela mais conhecida no Brasil. Ao cunhar o conceito de "modernidade líquida", em 2000, chamou a atenção de todo o mundo e teve suas obras traduzidas em vários países. Seus maiores admiradores estão na Inglaterra, Espanha, Itália e Brasil. Aqui é citado em inúmeros artigos e há periódico que leva seu nome, mas ainda encontram-se poucos livros que arriscam dialogar com suas ideias ou analisar em profundidade seu trabalho. Suas ideias têm servido para embasar artigos que tratam da era atual, mas, com exceções importantes, sem que haja uma profundidade maior.

Começa a ganhar entrada para além da sociologia em outras áreas de conhecimento no Brasil, como a educação, que conta com obra importante e pioneira no que diz respeito à trajetória do autor, intitulada Bauman & A Educação (2009). Embora não tenha refletido muito sobre esse tema, trouxe contribuições importantes para a compreensão da educação na sociedade líquida moderna. Foi o tema de sua fala no Rio de Janeiro, em 2015, quando fez a segunda e última visita ao Brasil. Mesmo nonagenário, tinha vida intensa de palestras e conferências pela Europa e podia ser considerado hiperativo. Pude presenciar essa ânsia de escrever e produzir quando estivemos juntos em sua residência. Também era amigo inseparável do cachimbo, como grande parte de suas fotos comprova.

Sua morte tende a gerar boom de estudos dedicados a teorias e traduções para o português de livros importantes, como o seu predileto Mortality, Immortality, and Other Life Strategies (1992) e Intimations of Postmodernity (1992). Sua obra monumental merece que estudiosos revitalizem seu legado, ampliando seus trabalhos pela compreensão crítica. Rejeitava deixar uma ¿escola Bauman¿, pois, segundo ele, isso seria ensinar conformismo.

Ao tratar da complexidade e dos desafios da era atual, atingiu leitores de fora das universidades, algo que pode ser considerado grande mérito. Por meio de seu estilo, por vezes quase literário, seus leitores descobriram um autor que falava sobre a vida como ela é e se identificaram com os dramas e os problemas sociais por ele destacados. Esperançoso no diálogo e na humanidade, rejeitava rótulo de pessimista muitas vezes ingenuamente a ele atribuído. Com estilo atraente mistura filosofia, psicanálise, sociologia e literatura sem guardar devoção para com autor algum.

Dias depois de seu falecimento, as redes sociais pipocaram frases mais conhecidas, entrevistas e artigos de autores que incorporaram suas ideias, desde a relação entre seu pensamento e a previdência social, ou a arquitetura na era líquida, entre outros tantos temas que podem ser interpretados a partir de seu trabalho. Até mesmo o papa Francisco, na missa de 21 de janeiro, citou conceito seu para explicar a conjuntura atual.

Foi justamente na semana do lançamento do livro Estranhos à Nossa Porta (2017) e do depósito de minha tese de doutorado na PUC-SP que trata de sua vida e obra, que ele repentinamente nos deixou. Numa triste ironia, terminamos juntos. Restou-nos o exemplo de sua energia que contagiava na busca por um mundo melhor, sua inquietude, generosidade e entrega que alimentam o sonho de um mundo mais justo e menos desigual. Sentiremos saudade!

Sobre o autor do Artigo:
João Nicodemos Martins Manfio é professor universitário em Joinville, palestrante, fundador e coordenador do Núcleo de Estudos sobre Bauman 


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