Desde dezembro, minhas redes sociais estão recheadas de fotos de pessoas felizes, de férias, me provocando com suas fotos de praia, de fazenda, de cidades longínquas, onde todos estão felizes, curtindo as férias. É como se eles quisessem me lembrar que, neste ano, todos estão de folga enquanto estou de plantão na escola onde trabalho. Eu sei que isso é uma armadilha: nas redes sociais, ninguém é triste, ninguém mostra a caixinha do comprimido contra a ansiedade que esconde na gaveta do criado-mudo, há uma felicidade instantânea no momento em que as câmeras dos celulares são ligadas e sorrisos se exibem, de preferência com copos de bebidinhas exóticas na mão, em frente a paisagens que parecem saídas de catálogos de uma agência de turismo.

No meio dessa insatisfação de quem precisa ficar – mesmo sabendo que minha pele branco-palmito não me permita horas ao sol nem que eu queira – surge uma vozinha dentro de mim que me parabeniza pelo dever cumprido, porque há uma satisfação sedutora em cumprir um dever.

Nesta semana, estive em Blumenau. Na verdade, estou em Blumenau, pelo menos duas vezes por ano, menos por turismo e mais por um compromisso médico. Cidade bonita, com aquele ar europeu de quem vive entre casas em enxaimel e colônias produtoras de cerveja artesanal.

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Na volta, o céu despencou em águas. É verão, as pancadas de chuva fazem jus ao nome, castigando quem está fora de casa. Assim como quem olha as redes sociais com sua felicidade frágil e momentânea, olhar a chuva provoca sentimentos negativos. Aprendemos, com a vida, que tempo bom são os dias de sol.

Assim que a chuva se foi, meus olhos se maravilharam: o céu se tingiu das mais belas cores que tenho na minha caixa de lápis de cor. Minha retina não conseguia registrar tudo o que eu via: algodões-doces e cor-de-rosa espalhavam-se na imensidão azul-índigo, com raios alaranjados despontando de trás dos montes. Presenciei o nascimento de um arco-íris, a queda do sol atrás do horizonte...

Viajar é sempre uma ótima oportunidade de dar à alma novos voos. Não precisa ser uma viagem longa, nem precisa de muitos dias: pode ser um bate e volta daqui para a cidade vizinha, que o espírito já consegue voar livre e voltar ao corpo renovado, com uma felicidade legítima, sem filtro e sem internet. Uma felicidade gratuita, para si mesmo, sem likes nem compartilhamentos.

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