— Isso é coisa de psicopata.

Quem nunca ouviu ou usou a expressão diante de um crime bárbaro, sem qualquer lógica, daqueles praticados por tamanha irracionalidade? Pois agora se pode dizer o mesmo dos corruptos. É o que afirmam cientistas que participam do Congresso do Cérebro, que ocorre até amanhã em Porto Alegre. A mesa do neurologista norte-americano Antoine Bechara está entre as que mais chama a atenção na programação que se iniciou quarta-feira.

Para o pesquisador, a corrupção pode ser decorrente de um tipo de psicopatia. A prática imoral indica disfunção anatômica e que pode ser facilitada em um ambiente resistente a algum tipo de punição. Mais ou menos assim: o cérebro de quem se corrompe guarda especificidades e indica que algumas pessoas sentem prazer em ganhar dinheiro fácil e não temem sanções ou corretivos. Assim sendo, se trouxermos os dois conceitos para a realidade do país, a hipótese mais provável é a de comportamento ilegal. 

A corrupção virou um hábito, um hábito difícil de mudar já que dinheiro é algo viciante, 10 vezes mais que heroína. Dá para imaginar. O gosto pela corrupção é desenvolvido na mesma área do cérebro onde se manifesta o prazer pelas drogas e pelo sexo. O neurologista também explicou que desde o começo as pessoas desenvolvem mecanismos para tornar a vida mais fácil, onde a "trapaça" se tornou parte do processo evolutivo. Mas Bechara faz uma alerta. Os humanos desenvolveram em outra área do cérebro (córtex frontal) uma parte que é responsável por aquilo que a gente considera moral e ético. No corrupto, diz ele, esse filtro não funciona, e ele agiria por impulso e por prazer.

Outros ensinamentos da mesa: quando a gente comete uma transgressão, regiões do cérebro que sinalizam perigo ou sensação ruim são ativadas e é justamente isso que impede que se cometa o ato (medo de ser flagrado, sentimento de culpa, sentir-se moralmente mal). Quando a pessoa não passa por esse processo (responsabilização), da próxima vez que cometer o ato essa ativação será menor;  ficará ainda menor numa segunda vez; menor ainda em uma terceira, e por aí vai: até não ativar nada e ficarmos sem qualquer preocupação sobre eventuais consequências do ato.

Do ponto de vista da neurociência, alertam os pesquisadores, é preciso que essa lógica seja quebrada para uma atuação mais rigorosa do córtex central. Só isso levaria a uma mudança de comportamento e faria com que não se criasse tantos psicopatas. A questão parece simples: o cérebro muda quando a gente tem um espaço que aceita corrupção, onde a pessoa não desenvolve a noção de que aquilo é errado e continua fazendo mais e mais e mais. Bem possível que muita gente concorde com os ouvintes da rádio CBN onde a notícia foi divulgada na manhã desta sexta-feira: o juiz Serio Moro tem um remédio para esse tipo de psicopata.

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