Razões não faltam para justificar os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) da JBS no Congresso. A sociedade deveria esperar que seus representantes no Legislativo tivessem um mínimo de preocupação em apurar, por exemplo, como um modesto estabelecimento de carnes de Goiás conseguiu se transformar no maior produtor de proteína animal do planeta, bancado com dinheiro facilitado do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os brasileiros têm, igualmente, o direito de conhecer as razões de os dirigentes da empresa terem custeado um número tão amplo de parlamentares e de homens públicos de diferentes partidos. E, também, de saber como conseguiram tantos benefícios com uma colaboração hoje colocada sob suspeita. São tantos os comprometimentos, porém, que há o risco de os trabalhos passarem ao largo dessas questões.  

Crises políticas como a enfrentada hoje pelo país, e que o caso JBS contribuiu para potencializar, deveriam ser resolvidas pelos próprios políticos. A CPMI que inicia seus trabalhos poderia dar uma contribuição importante nesse aspecto se pudesse atuar de forma imparcial e com objetividade. O problema é que está composta tanto por integrantes da tropa de choque do presidente Michel Temer, um dos mais atingidos pela delação, quanto por políticos financiados pela própria JBS. O relator escolhido, deputado Carlos Marun (PMDB-MS), é um exemplo típico do grau de envolvimento, pois se enquadra nos dois casos.

Nessas circunstâncias, o risco real é o de a iniciativa parlamentar se preocupar menos em investigar de fato e mais em preservar ou atacar figuras públicas de acordo com os interesses de seus integrantes. É o que se deduz quando alguns parlamentares já se insurgem contra a empresa em si ou contra a atuação do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, distanciando-se do que deveria merecer prioridade nas investigações. 

Depois de quatro meses, os trabalhos  recém estão sendo iniciados – coincidentemente ou não, logo depois da reviravolta ocorrida na delação do empresário Joesley Batista. Teoricamente, há tempo de acertar o rumo. A CPMI da JBS está diante do desafio de mostrar que o Congresso ainda tem como cumprir seu papel de investigar com isenção atos do poder público.

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