Essas linhas são fruto de hábito adquirido ao longo da amizade mantida com Luiz Carlos Cancellier de Olivo. Em momentos de inquietude, dizia, antes a escrita que a fala como remédio para conflitos internos. Não se trata de canonização, mas de recordar o óbvio: por detrás dos postos políticos, há pessoas. 

Conheci o reitor em 2013, quando não mediu esforços para desatar nós burocráticos a fim de que um grupo de estudantes que eu integrava conseguisse organizar evento sobre liberdade de expressão em Cuba.

Homem de diálogo, falava de maneira pausada e amena. Encarnou o verdadeiro significado de política. Homem culto, era capaz de começar uma discussão sobre direito administrativo, dar uma volta pelo conflito árabe-israelense e terminar citando algum conto de Machado de Assis. 

De posses módicas, morava num apartamento simples perto da UFSC. Caminhava amiúde pelo campus a conversar, a perguntar e, sobretudo, a ouvir os muitos integrantes da complexa vida universitária. Vivia para isso, vaidades acadêmicas não lhe interessavam.

Afora o arbítrio da prisão, o ritual vexatório de ser transferido a um presídio, despir-se na frente de estranhos, a noite no cárcere. Foi suficiente para quebrantar o espírito de um homem público que, recém-chegado ao auge de sua carreira política, viu seu patrimônio moral arruinado. Não obstante, proibido de entrar na instituição a que servia como reitor. Inútil bilhete, os fatos falam por si.

Há quem acredite que o enxovalho de ocupantes de cargos políticos conduzirá à depuração da vida pública brasileira. Não nos enganemos. Toda arbitrariedade vem travestida de imperativo moral. Não era, nem poderia ser outro o nome do Comitê de Salvação Pública encarregado de dizer quais cabeças se encontrariam com a guilhotina. Num país onde recrudesce o desencanto com a democracia, onde o escândalo se consolida como linguagem da política e sua prática se reduz à troca de favores, está pronto o palco para toda sorte de despotismo. A política é a única saída.

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