Obituários tendem a finalizar com a frase sobre quem o morto deixou: filhos, pais, marido, esposa. O caso do professor indígena Laklãnõ-Xokleng Marcondes Namblá merece tratamento igual. Morador na Terra Indígena de José Boiteux, no Vale do Itajaí, tinha cinco filhos - três crianças e dois adolescentes -, esposa, pais, irmãos. Assim como outros falecidos, interrompe um convívio com amigos,colegas de estudos, irmãos da igreja.

Marcondes era diácono da Assembleia de Deus. Por hora, silencia a guitarra da banda que entoava cânticos evangélicos. Assim como ficam sem aulas de violão os meninos e meninas Xokleng que participavam do projeto voluntário que ele desenvolvia.
Marcondes não era um qualquer. Era uma liderança forte, presente, corajosa. Formado no Curso de Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica, da UFSC, foi sábio ao perceber: a universidade era um lugar para compreender melhor as dinâmicas políticas, econômicas e sociais que ao longo da história atingiram seu povo.
 
Marcondes não era um qualquer. Mesmo que fosse, não merecia a brutalidade com que foi assassinado. Sem chance de defesa; sem esboçar reação. 
Por isso também a expectativa de que o motivo do assassinato seja esclarecido:
— As autoridades responsáveis pelas investigação precisam identificar e responsabilizar o criminoso — diz Jason de Oliveira, assessor de projetos do Comim.
Também o Núcleo de Estudos de Povos Indígenas (NEPI) da UFSC pede justiça pelo assassinato do professor que tinha grande capacidade de articulação:
— Marcondes Namblá mostrou que a Barragem Norte, que dividiu a Terra Indígena Laklãnõ, transformou o cotidiano das crianças, limitando o banho de rio e as brincadeiras que eram desenvolvidas na água. Mais ainda: estas brincadeiras mobilizavam vocabulários específicos, na língua nativa, que deixavam de ser utilizados pelas crianças, uma vez que as mesmas viam-se impedidas de brincar em determinadas partes do rio.
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Sul também exige agilidade nas investigações.
— Há urgência no combate às violências físicas, mas é igualmente urgente coibir aqueles que propagam o ódio, a intolerância e o desrespeito ao modo de ser dos indígenas — diz em nota.
Obituários tendem a finalizar citando quem o morto deixou. No caso do professor Namblá se pode escrever sobre os filhos, os pais, esposa...
E um povo (índio e não índio) à espera de justiça.

Leia também:

Polícia descarta latrocínio em morte de índio e diz já ter suspeitos

 Veja também
 
 Comente essa história