Vejo, em mensagens e fotos de despedida, que Harumi conquistou muita gente Cleber Gomes/Especial

Foto: Cleber Gomes / Especial

Na primeira vez em que encontrei a Harumi foi impossível não parar para observá-la. Seus olhos brilhavam ao ver bailarinas passando pelos corredores do Hospital Infantil de Joinville, em uma ação do Projeto A Noite é uma Criança. Eu já havia encerrado as entrevistas, conversado com outras crianças internadas no setor de oncologia, mas não pude evitar e pedi para conhecer a história da Harumi. Descobri que aquela visita a empolgava ainda mais do que aos outros pacientes porque ela também era uma pequena bailarina: fez aulas de balé dos quatro aos oito anos, até que a leucemia não permitiu mais nenhuma atividade física. 

Harumi se tornou a "personagem principal" daquela matéria, um texto pequeno com foto na contracapa do AN falando sobre a contrapartida social da Mostra de Dança Infantil de Joinville de 2016. 

Não é comum repetirmos histórias em matérias sobre o mesmo assunto, pelo menos não em curtos períodos de tempo e, a princípio, eu não deveria mais entrevistar Harumi e sua mãe. Mas, um ano depois daquele primeiro encontro, solicitei à assessoria de imprensa do Hospital Infantil entrevistas com três famílias de pacientes de diferentes idades para uma reportagem do Caderno Nós sobre câncer infantojuvenil. Um deles era Harumi, descobri ao entrar no quarto. 

Naquele dia, conheci a vida dela desde o momento em que os pais se conheceram, a enchente que obrigou a família a se mudar para Navegantes quando ela ainda era um bebê, em 2008; e o quanto ela se encheu de vida nos primeiros anos da infância, graças à sua mãe-heroína que dava a Harumi a oportunidade de experimentar todo tipo de arte e de esporte. Acho que foi por isso que tantos anos de luta contra a leucemia, tanto tempo olhando para o lado e enxergando macas, agulhas e medicamentos, nada disso tirava o brilho de emoção com o mundo dos olhos de Harumi. Naquela reportagem, ela e a mãe, Lilian, foram a capa do jornal. 

Na última vez em que nos encontramos, em janeiro deste ano, Harumi já havia conquistado uma pequena parcela do mundo e compartilhado sua luz de menina com nome de filha da Primavera. Era símbolo de força em sua cidade, famosa no Litoral Norte de Santa Catarina após virar notícia de outros jornais porque ganhara um escudo do Capitão América para ajuda-lá a combater aquele monstro que tirava suas forças. 

Desta vez, fui eu que a procurei. A ideia era fazer uma matéria falando sobre a necessidade de cadastros para doação de medula óssea, um pedido que Harumi fazia nas redes sociais. Mas, ao ver sua foto na cama do hospital, posando atrás do escudo, o editor de fotografia foi conquistado e decretou: essa foto é uma capa de edição de fim de semana. A matéria cresceu, percebemos que os números de cadastros em SC haviam caído em mais da metade de outros anos, e o legado de Harumi foi espalhado por todo o Estado em mais uma reportagem. Saí da nossa última entrevista com o coração apertado pelo medo de não encontrá-la mais. 

Hoje, Harumi partiu. Pelas redes sociais, vi que ela e a mãe haviam se mudado para São Paulo buscando outras alternativas e que, sem que estas aparecessem, voltaram para casa em Navegantes para Harumi viver seus últimos dias rodeada de amor. Também nas redes, vejo, em mensagens e fotos de despedida, que Harumi conquistou muita, muita gente. E penso que não foi por acaso que ela chamou minha atenção desde o primeiro encontro, e que não foi demais dedicar a ela tantas páginas de jornal.

Confira aqui o post de Cláudia Morriesen no Facebook

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