Por Renata Brasil Araujo, psicóloga, coordenadora do Programa de Dependência Química do Hospital Psiquiátrico São Pedro e vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD)

 PORTO ALEGRE, RS, BRASIL, 16-09-2018: Atividades de prevenção ao suicídio e valorização da vida realizadas no Acampamento Pela Vida, montado no Parque Marinha do Brasil. A ação faz parte do Setembro Amarelo. (Foto: Mateus Bruxel / Agência RBS)
Campanha de prevenção a suicídiosFoto: Mateus Bruxel / Agencia RBS

E se, em um dia qualquer, em que você se sentisse triste, desesperado com sua vida e sem esperanças, aparecesse alguém que lhe oferecesse uma viagem a um país desconhecido, mas que você imagina que seja um lugar tranquilo, no qual residem pessoas amigas, você iria? Você não se sentiria, ao menos, tentado a ir?

E se essa viagem não oferecesse passagem de volta? E se esse alguém fosse sua própria voz, aquela vozinha interior que se preocupa com você e que jamais lhe daria um mau conselho, mudaria sua opinião?

Falar em Setembro Amarelo e em prevenção do suicídio é se colocar no lugar de alguém que busca uma saída, e que não quer morrer, mas "viver" melhor, mesmo se não houver vida (perdoem-me o paradoxo). Ele pretende viver em outro mundo, que ele sonha que exista, onde mora um Deus bondoso, que vai lhe oferecer paz e perdão. E, se ele não acreditar nisso, por seu ceticismo, deve acreditar que a morte é, pelo menos, o fim para seu estado atual de "nada".

Existem pessoas que julgam mal quem comete o suicídio, mas deve ser porque não percebem o desespero que envolve fazer essa viagem sem volta. A dor do resultado do suicídio, na mente desses que são julgados, parece ser menor do que a dor de viver, e é justamente isto que os impele a tentar. Eles precisam que compreendamos que estão sofrendo e que devem urgentemente receber tratamento especializado para tal. Eles necessitam ser validados nas suas dores, mas também, ser apoiados a não agirem movidos por elas, sendo auxiliados a encontrar alternativas que lhes permitam ser felizes, pois devemos lembrar que há uma associação positiva entre grau de desesperança e risco de suicídio.

Assim, o que resumidamente precisamos fazer é nunca subestimar a dor do outro (este outro que pode estar aí, bem perto de você), mas ouvi-lo, ajudando-o na busca por tratamento e lhe oferecendo a esperança de uma vida melhor. Esse, sem dúvida alguma, é o jeito mais efetivo para prevenirmos o suicídio e diminuirmos os altos índices deste tipo de morte em nosso país.


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